quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Barão Gottfried Wilhelm Leibniz

Pode ser considerado o pai da linguagem dos computadores




Barão Gottfried Wilhelm Leibniz, ou apenas Leibnitz, como é mais conhecido, nasceu em Leipzig, na Alemanha, em 1 de julho de 1646. Seu pai, Friedrich Leibniz era professor de ética em Leipzig e morreu em 1652. Leibniz aprendeu sozinho latim e grego para ler grandes autores na bibliotece de seu pai. Em 1661 a 1666 cursou a Universidade de Leipzig como estudante de direito, quando então, teve contacto com textos de filósofos modernos da época, tais como Bacon (1561-1626), Hobbes (1588-1679), Galileu (1564-1642) e Descartes (1596-1650).

Em sua tese de bacharelado "Sobre o Princípio do Individual", de 1663, Leibniz enfatiza que o valor existencial do indivíduo não deve ser explicado somente pela "
matéria" ou pela "forma" mas, antes, por seu ser total. Em 1666 escreveu De Arte Combinatoria no qual formulou um modelo que é o precursor teórico de computação moderna: todo raciocínio, toda descoberta, verbal ou não, é redutível a uma combinação ordenada de elementos tais como números, palavras, sons ou cores.

Formando-se em leis em 1666, Leibniz candidatou-se ao doutorado e, sendo recusado devido a sua pouca idade, deixou Leipzig para sempre. Fez estudos de matemática em Jena. Na cidade livre de Nürnberg recebeu o título de doutor com a tese "Sobre Casos Intrigantes" e foi convidado a lecionar na universidade. Lá conheceu em 1667 Johann Christian, o Barão de Boyneburg, ilustre estadista alemão que o empregou e o introduziu na corte do príncipe e arcebispo de Moguncia, Johann Philipp von Schönborn, para assuntos de direito e política.

Em 1667 Leibniz dedicou ao príncipe um trabalho no qual mostrava a necessidade de uma filosofia e uma aritmética do direito e uma tabela de correspondência jurídica. Tratava-se de um sistema lógico de catalogação, o qual pode muito bem ser comparado aos atuais princípios da informática. Por causa desse trabalho foi incumbido de fazer a revisão do "corpus juris latini", a então consolidação do direito romano vigente.

Na área religiosa Leibniz se esforçou para a união das religiões protestante e católica.Leibniz trabalhou no Demonstrationes Catholicae, cujas especulações levam-no a situar a alma num determinado ponto e a desenvolver o princípio da razão suficiente, segundo o qual nada acontece sem uma razão. Suas conclusões aparecem em 1671 num trabalho com o título Hypothesis Physica Nova. Conclui que o movimento depende, como na teoria do astrônomo alemão Johannes Kepler, da ação de um espírito (no caso, Deus).

Em 1672 Leibniz vai a Paris em uma obscura missão diplomática: convencer Luiz XIV
a conquistar o Egito, aniquilar a Turquia para evitar novas invasões bárbaras da Europa, via Grécia. Era uma estratégia para desviar o poderio militar da França de uma ameaça à Alemanha.

Em Paris, conhece Antoine Arnauld (1612-1694), teólogo líder dos jansenistas. Estes, eram seguidores de uma doutrina que negava a liberdade de vontade e negava que Cristo houvesse morrido por todos os homens, considerados hereges pela Igreja Católica.

Com Arnauld, Leibniz discute sobre a possibilidade da união das igrejas, filosofia e matemática. Arnauld era conhecido pelos seus ataques aos jesuítas e foi demitido da Sorbone por heresia em 1656. Mais tarde, em 1682, iria refugiar-se em Bruxelas, Bélgica, onde escreveria suas idéias. Por essa ocasião Leibniz perde sucessivamente os seus protetores. Morreu o Barão de Boyneburg em fins de 1672 e o príncipe eleitor de Mainz no início de 1673. Buscando meios de manter-se, construiu uma máquina de calcular, um aperfeiçoamento de uma máquina desenvolvida anteriormente por Blaise Pascal, matemático e cientista francês e escritor, e indo à Inglaterra, apresentou-a à Royal Society em 1673. Em Londres Leibniz procurou os matemáticos e cientistas, inclusive Robert Boyle, e entre eles, John Collins, um amigo do físico Sir Isaac Newton, a quem voltaria a encontrar mais tarde.

A permanência de Leibniz em Paris se prolonga até 1676, onde pratica advocacia e trata com vários intelectuais, além de Arnauld, como Malebranche e Huygens. Christian Huygens (1629-1695), matemático, astrônomo e físico holandês ajudou-o nos cálculos matemáticos. Residindo em Paris, Huygens criou a teoria ondulatória da luz, introduziu o uso do pêndulo nos relógios, descobriu a forma dos aneis de Saturno. Eleito membro fundador da Academia de Ciências da França em 1666, morou lá até 1681, retornando então para a Holanda. Arnauld o apresenta a muitos jansenistas importantes em 1674, entre eles, a Étiene Périer, sobrinho de Pascal que confiou a Leibniz trabalhos não publicados de Pascal.

Em 1675 entretém com Nicolas Malebranche, outro geômetra e filósofo cartesiano, discussões enquanto trabalha no desenvolvimento dos cálculos integral e diferencial, cujos fundamentos lança naquele mesmo ano 1675. Ainda sem renda garantida para sua sobrevivência, Leibniz é obrigado, em 1676, a aceitar um emprego na Alemanha. Deixa Paris contra sua vontade, viajando primeiro para a Inglaterra e a Holanda.

Em Londres esteve novamente com John Collins, que lhe permitiu ver alguns trabalhos não publicados de outros matemáticos, principalmente de Newton. Na Holanda, em Haia, teve demoradas conversas com o filósofo racionalista judeu Baruch de Espinoza, com quem discute problemas metafísicos.

Espinoza (1632-1677) fora excomungado pelas autoridades judaicas pela sua explicação não tradicional da bíblia em 1656 e um ano depois do encontro com Leibniz, Espinoza se recolhe ao campo para escrever sua "Ética" (1677) e outros livros, inclusive o"Tratado Teológico-político" (1670) advogando liberdade de filosofia em nome da piedade e da paz pública.

Retornando à Alemanha, em fins de 1676, Leibniz trabalha para João Frederico, Duque de Hanôver, um luterano convertido ao catolicismo. Veio a ser, a partir de 1678, conselheiro do Duque e se propôs inúmeras realizações de interesse para o Ducado. Continua a manter debates sobre a união das religiões protestante e católica, primeiro com o Bispo Cristóbal Rojas de Espínola e, através de correspondência, com Jacques Benigne Bossuet, bispo católico francês. Conhece também Nicolaus Steno, um prelado que era um cientista especializado em geologia.

Nessa época Leibniz se ocupa de várias tarefas, entre elas, da inspeção dos conventos e melhoria da educação com fundação de academias, e desenvolve inúmeras pesquisas sobre prensas hidráulicas, moinhos, lâmpadas, submarinos, relógios, idealiza um modo de melhorar as carruagens e faz experiências com o elemento fósforo recém descoberto pelo alquimista alemão Henning Brand.

Desenvolveu também uma bomba d água para melhorar a exploração das minas próximas, nas quais freqüentemente trabalhou como engenheiro entre 1680 e 1685.Leibniz é considerado um dos criadores da geologia, devido a riqueza de suas observações, inclusive devido à hipótese de ter sido a terra primeiro líquida, idéia que apresenta no seu Protogeae, que somente foi publicado após sua morte, em 1749.

Tantas ocupações não interromperam seu trabalho em matemática. Em 1679 aperfeiçoou o sistema de numeração binário, base da moderna computação e, ao fim do mesmo ano, propôs as bases do que é hoje a topologia geral, parte da alta matemática.

A essa altura, início de 1680, falece o Duque João Frederico, que é sucedido pelo irmão Ernesto Augusto. A situação política agora é mais complicada para a Alemanha. A França, com Luís XIV torna-se uma ameaça. Aumentam as perseguições aos protestantes, culminando com a revogação do Édito de Nantes em 1685, um perigo para os principados alemães protestantes da fronteira. Em 1681 Luís XIV avançou anexando à França algumas cidades da Alsacia. O Império Germânico era ameaçado também em seu flanco oriental por uma revolta na Hungria e pelo avanço dos turcos que chegaram a assediar Viena em 1683.

Leibniz continua seu esforço nas frentes mais variadas, tanto pelo Ducado quanto pelo Império. Sugeriu meios de aumentar a produção de tecidos, propôs um processo de dessalinização da água, recomendou a classificação dos arquivos e, em 1682, sugeriu a publicação de um periódico, Acta Eruditorum.

Na área política escreveu, em 1683, um violento panfleto contra Luís XIV, intitulado O Mais Cristão Deus da Guerra, em francês e latim. Aí Leibniz expôs seus pensamentos a respeito da guerra com a Hungria.

Nessa mesma época continuou a aperfeiçoar seu sistema metafísico buscando uma noção de causa universal de todo ser, tentando chegar a um ponto de partida que reduzisse o raciocínio a uma álgebra do pensamento. Continuou também a desenvolver seus conhecimentos matemáticos e física. Em 1684 publicou Nova Methodus pro Maximis et Minimis, uma exposição do seu cálculo diferencial.

Desde 1665 Newton também havia descoberto o cálculo, mas apenas comunicara seus achados aos amigos e não os publicou. Entre esses amigos John Collins. Quando se soube que Leibniz havia estado com Collins na Inglaterra e visto alguns escritos de Newton, abriu-se a questão de prioridade da invenção do cálculo, que se tornou uma das mais famosas disputas do século XVIII.

Seu "Meditações sobre o conhecimento, a verdade e as idéias" apareceu nessa época definindo sua teoria do conhecimento. Em 1686 escreveu o "Discours de métaphysique" seguido de "Breve demonstração do memorável erro de Descartes e outros, sobre a Lei da Natureza". Pode se dizer que por volta de 1686 sua filosofia da monadologia estava definida, porem a palavra "mônada" seria inserida mais tarde, em 1695.

Em 1687 correspondeu-se com Pierre Bayle, o filósofo francês e enciclopedista que editava o influente jornal Notícias da República das Letras, afirmando em suas cartas sua independência dos cartesianos. Essa correspondência antecipou os Essais de théodicée sur la bonté de Dieu, la liberté de l homme et l origine du mal, único de seus livros mais importantes a ser publicado em sua vida, em 1710.

Em 1685 Leibniz foi nomeado historiador da Casa de Brunswick e conselheiro da corte. Seu trabalho seria provar, por meio da genealogia, que a casa nobre de Brunswick tinha suas origens na casa de Este, uma casa de príncipes italianos, o que permitiria Hanôver pretender um nono eleitorado. Em 1687 Leibniz começou a viajar em busca de documentos.

Seguiu pelo sul da Alemanha até a Áustria, ao tempo que Luís XIV mais uma vez declarava guerra ao Império. Foi bem recebido pelo Imperador e de lá seguiu para a Itália. Por onde ia encontrava-se com cientista e continuava seu trabalho intelectual. Publicou em 1689 seu ensaio sobre o movimento dos corpos celestes. Este ano leu o Principia Matematica de Newton. Retornou a Hanôver em 1690. Seus esforços não foramem vão. Em 1692 Ernesto Augusto obteve a investidura como Eleitor dos Imperadores do Sacro Império Germânico.

Dono de enorme energia intelectual, Leibniz continua estudos dos mais diversos, agora sobre a história da Terra, compreendendo os eventos geológicos e a descrição de fósseis. Procurou, por meio de monumentos e de vestígios linguísticos, a origem das migrações dos povos, origem e progresso da ciência, ética e política e, finalmente, por elementos da história sacra. Em seu projeto de uma história universal Leibniz nunca perdeu de vista o fato de que tudo se interliga. Apesar de não conseguir escrever essa história, seus esforços foram influentes porque ele divisou novas combinações de velhas idéias e inventou outras totalmente novas.

Em 1695 ele expôs uma parte de sua teoria dinâmica do movimento no Système Nouveau, onde tratava do relacionamento de substancias e da harmonia pre-estabelecida entre a alma e o corpo. Deus não necessita de intervir na ação do homem por meio de seu pensamento, como Malebranche postulava, ou dar corda num tipo de relógio de modo a conciliar os dois; em lugar disso, o Supremo Relojoeiro fez que correspondessem exatamente corpo e alma, eles dão sentido um a outro desde o começo.

Em 1697, em "Sobre a origem das coisas", Leibniz tentou provar que a origem última das coisas não pode ser outra senão Deus. No início de 1698 morreu o príncipe eleitor Ernesto Augusto, sucedendo-o seu filho George Luís. Incompatibilizado com o novo príncipe, mal educado e desagradável, Leibniz valia-se da amizade de Sofia, viúva, e de Sofia Carlota, filha do falecido príncipe. Com a ajuda da jovem princesa Carlota, a qual logo seria a primeira rainha da Prússia, promoveu a criação da Academia de Ciências de Berlim (Capital da Prússia, que era o norte da Alemanha e parte do norte da atual Polônia) em 1700.

Mais uma vez pôs-se a trabalhar arduamente pela união das igrejas: em Berlim tratava-se de unir luteranos e calvinistas; em Paris havia a oposição de Bossuet; em Viena, para onde retorna em 1700, consegue o apoio do Imperador, e na Inglaterra são os anglicanos que precisam ser convencidos.

Esta atividade deu oportunidade para comunicar-se com intelectuais ingleses, como o deísta John Toland, que vem acompanhando o embaixador da Inglaterra enviado a Hanôver em 1702, com o bispo de Salisbury, chefe da Igreja Anglicana, e Lady Darnaris Masham em cuja casa John Locke viria a falecer em 1704.
Leibniz estava impressionado com as qualidades do Czar russo, Pedro o Grande e, em 1711, foi recebido a primeira vez pelo Czar. Em outono de 1714 o Imperador nomeou-o conselheiro do império e lhe deu o título de Barão. Ainda nessa época escreveu Principes de la nature e de la Grace fondés en raison, cujo objeto é a harmonia pre-estabelecida entre essas duas ordens. Mais tarde, em 1714, escreveu Monadologia que sintetiza a filosofia da "Teodicéia".

Em meados de 1714, a morte da rainha Ana levou George Luís ao trono da Inglaterra com o nome de George I. Retornando a Hanôver, onde ele estava virtualmente em prisão domiciliar, Leibniz pôs-se novamente a trabalhar no Annales Imperii Occidentis Brunsvicenses (Anais braunsvicenses do Império Ocidental), ocupando-se também de extensa correspondência com Samuel Clarke.

Em Bad-Pyrmont ele encontrou Pedro o Grande pela última vez em 1716. A partir de então ele sofria muito de gota e ficou confinado ao leito. Leibniz falece em Hanôver em 14 de novembro de 1716, relativamente esquecido e isolado dos assuntos públicos. Um projeto seu que não teve sucesso foi o de união das igrejas cristãs, de unir novamente as duas profissões de fé.

Pensamento
Quase todas as obras de Leibniz estão escritas em francês ou latim e poucas em alemão, língua que não era muito destinada à obras de filosofia. Eram ortodoxos e otimistas, proclamando que o plano divino fez este o melhor de todos os mundos possíveis, um ponto de vista satirizado por Voltaire (1694-1778) no Candide.
Leibniz é conhecido entre os filósofos pela amplitude de seu pensamento sobre ideias e princípios fundamentais da filosofia, incluindo a verdade, os mundos possíveis, o princípio de razão suficiente (isto é, que nada ocorre sem uma razão), o princípio da harmonia pré-estabelecida (Deus construiu o universo de tal modo que os fatos mentais e físicos ocorrem simultaneamente), e o princípio de não contradição (que uma proposição da qual se pode derivar uma contradição é falsa).

Teve por toda a vida interesse, e perseguiu a idéia, de que os princípios da razão pudessem ser reduzidos a um sistema simbólico formal, uma álgebra ou cálculo do pensamento, no qual controvérsias seriam acertadas por meio de cálculos.

Foi tanto um filósofo quanto um matemático de gênio. Na matemática criou, com Isaac Newton (1643-1727) físico matemático inglês, o cálculo infinitesimal ou de limites de funções, uma fe rramenta para o cálculo diferencial que é o cálculo de derivadas de funções. No seu aspecto geométrico, o cálculo infinitesimal, integral e diferencial, toma o ponto simplesmente como uma circunferência de raio infinitamente pequeno, a curva como um pedaço de circunferência de raio finito, constante, e a reta um pedaço de circunferência de raio infinitamente longo.

Teoria do conhecimento
Princípios
De acordo com Leibniz, a razão afirma que uma coisa só pode existir necessariamente se, além de não ser contraditória, houver uma causa, causa de origem e causa final, que a faça existir. Tira daí dois princípios inatos.
Para explicar a Verdade da Razão e a Verdade de Fato, Leibniz recorre à dois princípios, um falando das coisas a priori e outro das coisas a posteriori, ou seja, uma não dependente da experiência e dos sentidos mas dependente da razão e outro dependente dos sentidos e da experiência (tal como afirmava Kant).

Princípio da não Contradição
O primeiro princípio inato é o Princípio da não Contradição do que é explicado ou demonstrado. Ao primeiro princípio correspondem as verdades de razão. São necessárias, têm a razão em si mesmas. O predicado está implícito na essência do sujeito. As verdades de razão são evidentes a priori, independentes da experiência, prévias à experiência. As verdades de razão são necessárias, fundam-se no princípio da contradição, como na proposição "dois mais dois são quatro": Não poderiam não ser. Não cabe contradição possível.

Princípio da Razão Suficiente
O segundo princípio é o Princípio da Razão Suficiente da existência da coisa em questão. Para que uma coisa seja, é necessário que se dê uma razão porque seja assim e não de outro modo. Ao segundo princípio correspondem as verdades de fato. Estas não se justificam a priori, mas sim pelo princípio da razão suficiente. As verdades de fato são contingentes. A sua razão resulta de uma infinidade de atos passados e presentes que constituem a razão suficiente pela qual ele se dá agora. São atestadas pela experiência. São as verdades científicas; são de um jeito, mas poderiam ser de outro. A água ferve a 100 graus centígrados, mas poderia não ferver e, de fato não ferve, quando é mudada a pressão no seu recipiente. Essas verdades dependem de experiência que as comprove.

Em Deus desapareceria a distinção entre verdades de fato e verdades de razão, porque Deus conhece atualmente toda a série infinita de razões suficientes que fizeram que cada coisa seja aquilo que é. Além dos princípios da não-contradição, da razão suficiente, encontra também os princípios do melhor, da continuidade e dos indiscerníveis, considerados por ele constitutivos da própria razão humana e, portanto, inatos, embora apenas virtualmente.

Nos "Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano" Leibniz rejeita a teoria empirista de Locke (1632-1704), segundo a qual a origem das idéias encontra-se exclusivamente na experiência e que a alma seria uma tabula rasa. Para Leibniz, a vontade do Criador submete-se ao seu entendimento; Deus não pode romper Sua própria lógica e agir sem razões, pois estas constituem Sua natureza imutável. Conseqüentemente o mundo criado por Deus estaria impregnado de racionalidade, cumprindo objetivos propostos pela mente divina. Deus calcula vários mundos possíveis e faz existir o melhor desses mundos. Entre tantos mundos possíveis (existentes em Deus como possibilidades), Deus dá existência a um só e a escolha obedece ao critério do melhor, que é a razão suficiente do existir do nosso mundo.

Princípio de Continuidade
De acordo com o princípio de continuidade, não existem descontinuidades na hierarquia dos seres (As plantas são animais imperfeitos e também não há vazios no espaço). Quanto ao princípio dos indiscerníveis, Leibniz afirma que não há no universo dois seres idênticos e que sua diferença não é numérica nem espacial ou temporal, mas intrínseca, isto é, cada ser é em si diferente de qualquer outro.

Origem das idéias
Leibniz, diante da necessidade de conciliar algumas evidências favoráveis e contrárias à existência de idéias inatas, supôz existir no espírito alguma estrutura coordenadora do raciocínio. Ao invés das idéias inatas em si, ele admitiu serem inatas certas estruturas geradoras de idéias. No prefácio aos "Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano", diz:

"Por isso emprego de preferência a comparação com um bloco de mármore que tem veios... se há veios na pedra que desenham a figura de Hércules em lugar de qualquer outra, este bloco lhe estaria já disposto, e Hércules lhe seria de algum modo como inato, ainda que fosse sempre necessário certo trabalho para descobrir estes veios e destaca-los pelo polimento, eliminando o que impede sua aparição. Do mesmo modo as idéias e a verdade nos são inatas como inclinações, disposições, capacidades e faculdades naturais, e não como ações ou funções, se bem que estas faculdades vão sempre acompanhadas de algumas ações correspondentes imperceptíveis".
A mônada encerra em si toda a realidade e nada lhe pode vir de fora. Portanto, tudo o que aconteça, está incluído na sua essência e, por conseguinte, na sua noção completa.Leibniz contraria a posição empirista de que não há nada no entendimento que não tenha passado antes pelos sentidos, excetuando o próprio entendimento. Todas as ideias procedem da princípio de continuidade. Nada é recebido de fora. Este é um postulado diametralmente oposto ao empirismo de Locke, que reconhece as idéias resultantes da experiência.

As ideias são, pois, inatas num certo sentido. Não estão em estado de atualidade que pudessem ser percebidas. Estão em nós em estado de virtualidades, ou potencial, e é através da reflexão que a alma adquire consciência. Esta é uma certa aproximação com Platão. Nossa alma (que é uma mônada) é preformada, isto é, contem virtualmente as verdades necessárias que descobre e torna distintas pela reflexão.

Lógica
A lógica tradicional, demonstrativa, não satisfaz Leibniz. Crê que só serve para demonstrar verdades já conhecidas e não para encontra-las. Quis fazer uma lógica que servisse para descobrir verdades, uma combinatória universal que estudasse as possíveis combinações dos conceitos. Esgrimando com objetos ideais, seria possível chegar a todas as verdades. Poder-se-ia operar de uma forma apriorística e segura, de uma maneira matemática, para a investigação da verdade.

Esta é a famosa Ars magna combinatoria, que seduziu filósofos desde Raimundo Lúlio (1235-1316). Ela se apoia, evidentemente, na crença de que os fatos acompanhariam a linguagem em lugar da linguagem acompanhar os fatos, ordenando os conceitos e apontado possibilidades apenas enquanto associa referências da experiência passada, como em Locke.

Monadologia
Em 1676 Leibniz tornou-se o fundador de uma nova formulação teórica conhecida como dinâmica, que substituia a energia cinética pela conservação do movimento. Leibnizexplica os seres como forças vivas, não como máquinas. Em crítica a Descartes, reelabora o pensamento cartesiano. A redução cartesiana da matéria à extensão não explica a resistência que a matéria oferece ao movimento. Esta resistência é uma "força".

A chamada matéria, na sua essência, é força. E Descartes não se ocupa da força, mas apenas do movimento, da mera mudança de posição de um móvel em relação às coordenadas. Leibniz muda essa física estática e geométrica. O movimento é produzido por uma força viva. A ideia de uma natureza estática e inerte é substituída por uma idéia dinâmica; em contraste com uma física da extensão, faz um retorno ao pensamento grego de que a natureza é princípio de movimento.
Para acomodar a força na natureza Leibniz necessita uma nova idéia de substância. A partir da noção de matéria como essencialmente atividade, Leibniz chega à idéia de que o universo é composto por unidades de força, as mônadas, noção fundamental de sua metafísica. Mônada quer dizer substância real, palavra usada por Giordano Bruno, segundo dizem, a teria tirado de Plotino.

A mônada não tem extensão, não é divisível, não é material. Mônada é força, é energia, vigor. Não força física mas capacidade de atuar, de agir. O universo não é senão um conjunto de substâncias simples, ativas, construídas pelas mônadas. São unidades sem partes, que formam os compostos; são os elementos das coisas.
Leibniz faz o contrário de Espinoza: enquanto este reduz a substancialidade a um ente único, natureza ou Deus, Leibniz restitui à substancia o caráter de coisa individual que teve desde Aristóteles. A substância, dizia Aristóteles, é o que é próprio de cada coisa. A substância ou natureza torna a ser o princípio do movimento nas próprias coisas.

As mônadas são rigorosamente indivisíveis e, portanto, inextensas, porque a extensão é sempre divisível. Estas mônadas simples não podem corromper-se, nem perecer por dissolução, nem começar por composição. Têm qualidades, são distintas e incomunicáveis entre si e também mudam de modo contínuo segundo suas possibilidades internas. São unidades de força. A partir de seu lugar, cada mônada representa ou reflete o universo inteiro, ativamente. As mônadas não são todas de igual hierarquia; refletem o universo com distintos graus de claridade.

Tudo o que acontece à mônada brota do seu próprio ser, das suas possibilidades internas, sem intervenção exterior. As mônadas têm percepções e apercepções; as primeiras são obscuras ou confusas, as segundas claras e distintas. As mônadas das coisas têm percepções insensíveis, sem consciência, o que também acontece ao homem, em diferentes graus. Uma simples sensação é uma ideia confusa. Quando as percepções têm clareza e consciência, e são acompanhadas de memória, são apercepções, e estas são próprias de almas. No cume da hierarquia das mônadas está Deus, que é acto puro.

As coisas do mundo são indiscerníveis quando são iguais (princípio de Leibniz chamados "os indicerníveis") e uma mônada é totalmente diferente de outra. Quantidade paraLeibniz é movimento e multiplicidade, portanto, como força não é mais passividade, mas atividade. O universo não é senão um conjunto de mônadas. A quantidade das mônadas é infinita, mas cada mônada é diferente uma de outra. À matéria prima, de todo passiva, dotada apenas de extensão (como queria Descartes), contrapõe a matéria segunda, dotada de ação. A matéria prima (concebida em abstrato pois não existe sem a matéria segunda) é a matéria em si mesma, de todo passiva, sem nenhum princípio de movimento. A matéria segunda ou vestida é aquela que tem em si um princípio de movimento.

Porém cada mônada resulta de uma matéria prima ou princípio passivo e de um elemento ativo ou força. A mônada criada não pode jamais libertar-se da passividade pois, ao contrário, seria ato puro como Deus. O espírito é mônada. Nossa experiência interior, que nos revela a nós mesmos como uma substância ao mesmo tempo una e indivisível, indica nossa consciência como uma mônada. Conhecemos, imaginamos a fôrça da mônada captando a nós mesmos como força, como energia, como trânsito e movimento interno psicológico de uma idéia, de uma percepção a outra percepção, de uma vivência a outra vivência.

Apesar de indivisível, individual e simples, há mudanças interiores, há atividades no interior na mônada. Estas atividades são a percepção e a apetição. Leibniz define a percepção como a representação do múltiplo no simples. Apetição é tendência, carência de passar de uma a outra percepção: é uma lei espontânea. A realidade metafísica da mônada (perceber e apetecer) corresponde ao Eu.

A absoluta perfeição da mônada criada é sempre um esforço e não um ato. A atividade contínua da mônada é o esforço de exprimir-se a si mesma, isto é, de adquirir sempre mais consciência do que virtualmente contem. Perceber é ao mesmo tempo apetecer de perceber ainda mais.

Há uma diferença de consciência entre as mônadas (de percepção). Existem as mônadas dos corpos brutos "que só têm percepções inconscientes e apetições cegas", Os animais se constituem de mônadas "sensitivas", dotados de apercepções e desejos, e o homem de mônadas "racionais", com consciência e vontade. Categorias de percepções. Há três distinções fundamentais entre as percepções: os viventes, os animais, os homens.

As percepções das quais não se tem consciência são chamadas por Leibniz percepções insensíveis. A cada momento nós temos impressões das quais nós não nos conscientizamos... Existem muitos indícios que comprovam que temos em cada momento uma infinidade de percepções, mas sem apercepção e sem reflexão.

Todas as ações que à primeira vista parecem arbitrárias e sem um motivo encontram a sua explicação precisamente nas percepções insensíveis, que explicam também as diferenças de caráter e de temperamento. As mônadas têm percepção, mas algumas dentre elas têm apercepção. As mônadas que tem apercepção e memória constituem as almas.

O saber de perceber é a apercepção, que é também esforço de ter sempre percepções mais distintas. Tal tendência vai ao infinito, pois a mônada não realiza jamais a sua completa perfeição. Leibniz não admite comunicação ou ligação entre as mônadas. Cada uma tem um plano interno segundo o qual vai movimentar-se de modo que esteja no lugar rigorosamente certo onde é esperado que esteja para constituir, com outras mônadas, os corpos em repouso ou em movimento. É o que Leibniz chamou "harmonia pre-estabelecida".

É fundamental no pensamento de Leibniz o conceito de "harmonia pre-estabelecida". Deus põe, em cada mônada, a lei da evolução interna de suas percepções em harmônica correspondência. Os atos de cada mônada foram antecipadamente regulados de modo a estarem adequados aos atos de todas as outras; isso constituiria a harmonia pré-estabelecida.

Deus cria as mônadas como se fossem relógios, organiza-os com perfeição de maneira a marcarem sempre a mesma hora e dá-lhes corda a partir do mesmo instante, deixando em seguida que seus mecanismos operem sozinhos. Assim operam coordenadamente seu desenvolvimento corresponde, a cada instante, exatamente ao de todas as outras. No ato da criação, fez com que as modificações interna de cada mônada correspondessem exatamente às modificações de cada uma das outras.
Há um reparo que alguns fazem a Leibniz nesse particular. Segundo seu pensamento, Deus assegurou, desde sempre, a correspondência das minhas ideias com a realidade das coisas, ao fazer coincidir o desenvolvimento da minha mônada pensante com todo o universo. Porém diz, no Discours de métaphysique, que temos na nossa alma as ideias de todas as coisas "mercê da ação contínua de Deus sobre nós"... Então, aquela correspondência não estava assegurada e mais, as mônadas não seriam invioláveis. Se, de acordo com o próprio pensamento de Leibniz, as mônadas "não têm janelas" e têm já em si todo seu desenvolvimento, então há uma exceção necessária: em vez de se porem em comunicação umas com as outras, abrem-se exclusivamente para Deus.

Teodiceia
Leibniz concebe um mundo rigorosamente racional e como o melhor dos mundos possíveis. Então, como explicar a presença do mal? O mal manifesta-se de três modos: metafísico, físico e moral.

O Mal Metafísico é a imperfeição inerente à própria essência da criatura. Só Deus é perfeito. Falta alguma coisa ao homem para a perfeição, e o mal é a ausência do bem, na concepção neoplatônica e agostiniana. O mundo, como finito, é imperfeito para distinguir-se de Deus. O mal metafísico, sendo a imperfeição, ele é inevitável na criatura. Ao produzir o mundo tal como ele é, Deus escolheu o menor dos males, de tal forma que o mundo comporta o máximo de bem e o mínimo de mal. A matemática divina responsável pela determinação do máximo de existência, tão rigorosa quanto as dos máximos e mínimos matemáticos ou as leis do equilíbrio, exerce-se na própria origem das coisas.

Um mal é, para Leibniz, a raiz do outro. O mal metafísico é a raiz do Mal Moral. É por ser imperfeito que o homem se deixa envolver pelo confuso. O Mal Físico é entendido porLeibniz como consequência do mal moral, seja porque está vinculado à limitação original, seja porque é punição do pecado (moral). Deus não olhou apenas a felicidade das criaturas inteligentes mas a perfeição do conjunto.

Na moral, o bem significa o triunfo sobre o mal e para que haja bem é necessário que haja mal. O mal que existe no mundo é o mínimo necessário para que haja um máximo de bem. Deus não implica contradição, portanto, Deus é possível como um ser perfeitíssimo, mas para um ser perfeitíssimo sua tendência à existência se traduz imediatamente em ato. A prova de que existe é a harmonia pre-estabelecida. Porque há acordo entre as mônadas é necessário Deus como autor delas. Outra prova são as coisas contingentes: tudo que existe deve ter uma razão suficiente da sua existência; nenhuma coisa existente tem em si mesma tal razão; portanto existe Deus como razão suficiente de todo o universo. Deus é a mônada perfeita, puro ato. A Teodiceia de Leibniz leva como subtítulo Ensaios Sobre a Bondade de Deus, a Liberdade do Homem e a Origem do Mal.

Liberdade
A questão da liberdade é o mais difícil de se compreender em Leibniz porque as mônadas encerram em si tudo o que lhes há de acontecer e hão de fazer. Todas as mônadas são espontâneas, porque nada externo pode exercer coação sobre elas, nem obriga-las a coisa nenhuma. Como é possível a liberdade?

Segundo ele, Deus cria os homens e os cria livres. Deus conhece os faturíveis, isto é, os frutos condicionados, as coisas que serão se se puserem em certas condições. Deus conhece o que faria a vontade livre, sem que esteja determinado que isto tenha de ser assim, nem se trate, portanto, de predeterminação.

O Mal Metafísico nasce da impossibilidade do mundo ser tão infinito quanto o seu criador. O Mal Moral é permitido por Deus simplesmente, pois é condição para os outros bens maiores. O Mal Físico tem a sua justificação para dar ocasião a valores mais altos. Por exemplo, a adversidade dá ocasião a que exista a fortaleza de ânimo, o heroísmo, a abnegação; além disso, Leibniz crê que a vida, em suma, não é má, e que é maior o prazer que a dor.

Não se pode considerar isoladamente um fato. Não conhecemos os planos totais de Deus, já que seria necessário vê-los na totalidade dos seus desígnios. Como Deus é onipotente e bom, podemos assegurar que o mundo é o melhor dos mundos possíveis; isto é, é aquele que contém o máximo de bem com um mínimo de mal que é condição para o bem do conjunto.

Deus quer que os homens sejam livres e permite que possam pecar, porque é melhor essa liberdade que a falta dela. O homem não sabe usar a liberdade; esta é um bem. O pecado aparece, pois, como um mal possível que condiciona um bem superior, a saber: a liberdade humana.



Guilherme SM - JeanGottfried Wilhelm Leibniz - in. link Origins, Internet, disponível em http://linkorigins.blogspot.com.br, revisto em 2014




Estas páginas são, predominantemente, resumos do artigo Gottfried Wilhelm Leibniz, in. Filosofia Moderna - Rubem Queiroz Cobra
COBRA.PAGES.nom.br, Internet, Brasília, 1997. Disponível na internet em Filosofia Moderna


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