Pensamentos do Dia. Sempre é Tempo de Aprender!

Pense no que você faz hoje, fez ontem e no que vai fazer amanhã. Reflita sobre o que é melhor para você e o mundo. Seja Feliz!

A psicoterapia visa o mais profundo bem-estar

Terapia é mais ou menos como massagem: para cada tipo de problema tem uma específica.

Pesquisa em Psicologia

A psicologia científica, tratada neste artigo, não deve confundir-se com senso comum ou psicologia popular.

PNL Programação Neuro Linguística

Revelado métodos inovadores de Neolinguística que ajudara você nos estudos, tralhado e vida pessoal.

Artigos e vídeos na área de Psicologia

Conteúdo grátis na área de Psicologia - Os melhores artigos e videos para auxiliar seu desenvolvimento pessoal e Acadêmico.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

John Locke

Filósofo que criou a idéia do Estado Natural e defendeu a idéia de Tabula Rasa
| Filosofia |

John Locke nasceu em Wrington, em Somerset, no sudoeste da Inglaterra, em 29 de agosto de 1632, 
 e faleceu com 72 anos, em 1704. A família de John Locke era da linha puritana da religião anglicana, seu pai, também John Locke, era um pequeno proprietário e sua mãe, Agnes Locke, filha de um curtidor. Viviam em um chalé coberto de colmo num conjunto de moradias de famílias do mesmo nível da sua. John Locke era o filho mais velho de três e seu pai deu-lhe educação severa e correta, a qual Locke assim a reconheceu depois de adulto.

O período da infância e adolescência de Locke deu-se durante a ascensão de uma nova filosofia que resultaria no Iluminismo. As descobertas de Galileu já se tornavam conhecidas, Campanella publicava trabalhos em Paris e apareceram as primeiras publicações de Thomas Hobbes e René Descartes.
Nesta mesma época ocorre também uma guerra civil na Inglaterra, que durou de 1642 a1646, quando puritanos e presbiterianos escoceses aliam-se contra o Rei Carlos I. Foi neste conflito que Cromwell comanda os rebeldes. Condenado pelo Parlamento, o Rei Carlos I é executado em 1649. Seu filho, o príncipe de Gales, posteriormente Carlos II, fugiu para a França, refugiando-se em Paris.

John Locke está entre os filósofos chamados empiristas, por compatibilizarem a ciência junto à filosofia, valorizando a experiência como fonte de conhecimento. John Lockedestaca-se pela sua teoria das idéias e pelo seu postulado da legitimidade da propriedade, inserido na sua teoria social e política. Para ele, o direito de propriedade é a base da liberdade humana "porque todo homem tem uma propriedade que é sua própria pessoa". O governo, dizia, existe para proteger esse direito.

A reflexão
Segundo Locke, então, a mente não teria absolutamente idéias inatas. O que seria inatas eram as faculdades: a mente percebe, lembra, e combina a idéias que lhe chegam do mundo exterior. Ela também deseja, delibera, e quer, e estas atividades mentais são elas próprias a fonte de nova classe de idéias.

De acordo com Locke todas as idéias de Reflexão caem nas seguintes subcategorias:
1. Memória: a habilidade de chamar uma idéia ausente de volta à consciência;
2. Retenção: a habilidade de manter um pensamento na consciência;
3. Discernimento: a habilidade de reconhecer diferenças entre as coisas;
4. Comparação: a habilidade de reconhecer as semelhanças entre as coisas;
5. Composição: a habilidade de construir novas idéias tomando como material, outras idéias; e
6. Abstração: a habilidade de distinguir princípios de relação abstratos (tais como provas matemáticas), os quais jazem por trás de outras idéias e assim criar uma idéia de generalidade.

A experiência é pois dupla. Nossa observação tanto pode visar objetos externos da sensibilidade quanto operações internas da própria mente. No primeiro caso as idéias são de sensação, no segundo, de reflexão. No entanto, sem a sensação a mente não teria com que operar e portanto não poderia ter idéias de suas operações, ou seja, idéias de reflexão.

Locke estava interessado nos tópicos tradicionais da filosofia: o Eu, o Mundo, Deus e as bases do conhecimento. É contemporâneo de Thomas Hobbes mas, ao contrário deste, é liberal e tem convicções parlamentaristas. As teses de Locke influenciaram enormemente as bases das democracias liberais, a tal ponto de, no século XVIII, os iluministas franceses terem buscado as principais idéias responsáveis pela Revolução Francesa em suas obras. Inclusive a teoria da separação dos três poderes de Montesquieu foi inspiradaem Locke. Também influenciou significativamente os pensadores norte-americanos na elaboração da declaração de sua independência em 1776.

Formação
Após a vitória dos Parlamentaristas, aos 15 anos, Locke foi indicado e aceito na Westminster School, em Londres, o velho Colégio de São Pedro. Aí, Locke estudou principalmente grego e latim.

Em 1652, Locke foi aprovado para a Christ Church College, o principal colégio em Oxford. Completou seus estudos de bacharelado em artes, assistido por um tutor, conforme o sistema da escola, no decurso de três anos e meio. Locke buscou complementar sua educação com a leitura de obras contemporâneas de filosofia, particularmente de Descartes. Interessou-se, acima de tudo, pela nova ciência experimental criada por Roger Bacon e adquiriu formação médica. Seu interesse pela medicina o aproxima de Richard Lower, um dos pioneiros da fisiologia cardíaca e o primeiro a efetuar uma transfusão de sangue.

Os interesses principais de Locke recaíam sobre as ciências naturais e pela investigação social e política. Mas aquelas disciplinas básicas, no entanto, que constituíam o método escolástico, lhe foram úteis mais tarde, como filósofo. Em 1660, Locke foi eleito "Lecturer", um cargo próprio dos colégios ingleses, equivalente a tutor, orientador ou instrutor de alunos de Grego no Christ Church. Dois meses depois de sua nomeação seu pai faleceu, deixando-lhe algumas terras e alguns chalés perto de Pensford. Este patrimônio pode dotar o filósofo de uma renda suficiente para o resto de sua vida. Lockeacabou por residir em Christ Church College por mais de trinta anos, tendo se afastado apenas vez ou outra para ir à Londres ou para viagens ao exterior.

O Protetorado de Cromwell durou de 1653 até a data em que morreu, em 1658. Com a morte de Cromwell, o Este casamento garantiu importantes vantagens comerciais para a Inglaterra, a qual, em troca, dava a Dom João IV o que ele mais desejava; a proteção contra a ameaça da Espanha de retomar seu domínio sobre Portugal.

O envolvimento inicial de Locke com a política começa em 1660, se considerava um monarquista e contrariando a vocação política paterna. Nesse ano, por temer o fracionamento do país depois da morte de Cromwell, o Parlamento chama de volta à Inglaterra o herdeiro do trono e restaura monarquia, aclamando Carlos II.
Nessa época a linha de pensamento de Locke tende ao autoritarismo, por temer a anarquia, segundo ele, e se alinha ao pensamento de Hobbes. Mais tarde suas convicções políticas, inclusive sua postura quanto à tolerância, haveria mudar, inclusive voltando-se radicalmente contra Hobbes.

Nas décadas seguintes Locke prosseguiu em seus estudos privados e avançou seus estudos médicos e científicos, assistindo aulas do fisiologista Thomas Willis, o qual tentava explicar o funcionamento do corpo por interações químicas. Nesse período Locketambém colaborou com Robert Boyle, um dos fundadores da química moderna. Tanto quanto Locke, Boyle tinha preocupações religiosas, sustentando que o estudo científico da natureza era um dever religioso. Nesta época Locke faz outro amigo, Thomas Sydenham (o mesmo da Coréia de Sydenham), um eminente cientista médico. Sydenham foi o fundador da medicina clínica.

Como diplomata
Em 1663, Locke foi eleito censor de Filosofia Moral e manteve o cargo por um ano, ao fim do qual iria deixar Christ Church. Seu irmão morreu aquele ano em Pensford e Lockedecidiu passar algum tempo fora, como diplomata. A experiência diplomática de Locke, apesar de curta, teve importante reflexo em sua filosofia. Ele foi o secretário da missão diplomática de Sir Walter Vane a Brandenburg em 1665.

Em Brandenburgo ficou impressionado com a tolerância entre as várias facções religiosas e escreveu a esse respeito uma carta para seu amigo Boyle, ressaltando que aquela paz devia-se, parte ao poder dos magistrados, parte à boa natureza e prudência do povo, o qual mantinha diferentes opiniões sem nenhum ódio secreto ou rancor.

Brandenburg havia se mantido neutro na Guerra dos Trinta Anos entre católicos, calvinistas e luteranos e Frederico Guilherme, o Grande Eleitor, assumindo o poder em 1640, iniciou um programa de reconstrução do principado, incluindo desde obras de fortificação militar a obras civis, como por exemplo a construção de canais de navegação. Frederico efetivou também a união da Prússia ao eleitorado, o que aumentava consideravelmente seu poder e importância no contexto político europeu.
Foi a partir dessa experiência democrática de Brandenburgo, que Locke começou a rejeitar a visão mais autoritária de Thomas Hobbes. Depois de sua missão Brandenburgo, foram oferecidas a ele numerosas oportunidades em outros diversos postos diplomáticos, os quais ele declinou devido ao seu interesse em medicina, retornando ao seu domicílio em Oxford.

Como Médico
Como médico, Locke conheceu e chamou a atenção de Lord Anthony Ashley Cooper, por intermédio de Sydenham. Locke desejava permanecer em Oxford e obter o grau de Doutor em Medicina sem ter que freqüentar todas as classes, o que foi conseguido mediante empenho de Lord Ashley junto ao Secretário de Estado. Foi permitindo a Lockeestudar para o grau de Doutor em Medicina na Christ Church College sem as obrigações acadêmicas de aluno. Em seguida, Lord Ashley convidou-o para fazer parte da equipe de empregados de sua casa, servindo como médico da família. Locke aceitou e viajou para Londres.

Lord Ashley era um político ousado e oponente radical de Carlos II, o qual tentava refortalecer o absolutismo. Os ideais políticos de Lord Ashley eram a monarquia constitucional, a sucessão do trono por um protestante, liberdades civis, tolerância religiosa, governo através do parlamento e expansão da economia britânica. Como tais ideais eram afins aos defendidos por Locke, havia entre eles uma amizade e entendimento perfeito.

Locke encontrava-se ainda com representantes da escola de humanistas cristãos, os Platônicos de Cambridge, intelectuais que, apesar de simpáticos à ciência empírica, opunham-se ao materialismo por considerá-lo falho em explicar o elemento racional na vida humana. Tendiam a ser liberais em política e religião, porém, tanto quanto eles, ensinavam um Platonismo que se apoiava na crença de idéias inatas. Locke não poderia compactuava totalmente com essas idéias, mas a ênfase deles na prática dos costumes como uma parte da vida religiosa e a rejeição ao materialismo eram aspectos que Lockeachava atraentes. Um desses humanistas, adepto da existência de idéias inatas, era Ralph Cudworth, cuja filha haveria de hospedar Locke em seus últimos anos e cuja obra "Verdadeiro Sistema Intelectual do Universo" influenciou consideravelmente seu pensamento. Apesar disso tudo, o Livro I do Ensaio de Locke é dedicado à crítica do inatismo (das idéias inatas) defendido por Cudworth.

A escola humanista estava próxima de um outro grupo liberal dissidente da Igreja Anglicana, a do Latitudinarianismo, o qual também influenciou Locke nessa época. Para esse grupo, se um homem confessava Cristo, isto apenas deveria ser suficiente para habilitá-lo a ser membro da Igreja Cristã, e os demais acordos em coisas não essenciais não deveria ser requerido. Esses movimentos prepararam Locke para a escola antidogmática e liberal de teologia que ele encontraria mais tarde na Holanda, uma escola em rebeldia contra a estreiteza do Calvinismo tradicional.

A Filosofia acabou por afastar Locke por certo tempo da medicina. Em 1668, Benjamin Whitcote, o teólogo latitudinário líder da Cambridge School e vigário da St. Lawrence Jewry, em Londres, atraiu Locke para sua congregação. Esta congregação professava uma forma de cristianismo que considerava a teologia como racional. Essa visão da teologia reacendeu o interesse de Locke pela religião e pelas escrituras, sobre o que publicaria mais tarde um trabalho.

Interessou-se Locke também por Economia, preparando o trabalho que publicaria anos mais tarde com o título Algumas Considerações sobre a Redução dos Juros e o Aumento do Valor da Moeda. Porém retornou ao interesse médico quando Ashley adoeceu subitamente. Ele salvou a vida do estadista por meio de uma habilidosa cirurgia, quando este adoeceu em maio de 1668. Então Locke teve que por de lado qualquer projeto para se entregar inteiramente a dar-lhe cuidado médico.

Diagnosticou a doença como problema do fígado. Fez um cirurgião drenar um cisto, inserindo um tubo de prata. Ashley recuperou maravilhosamente e concluiu que devia sua vida a Locke.

Locke era conselheiro pessoal de Ashley não apenas em matéria médica mas também em assuntos gerais. Fez os acertos para o casamento do herdeiro de Ashley com a filha do duque de Rutland, assistiu sua nora em 1671 no seu resguardo e dirigiu a alimentação e educação do recém nascido, o qual viria a ser o 3º Conde de Shaftesbury, o famoso autor de Characteristics of Man, Manners, Opinions, Times, obra que despertou grande interesse entre os intelectuais europeus, inclusive de Kant. Assessorou Lord Ashley em vários assuntos políticos importantes e conviveu com os mais altos círculos intelectuais e políticos da época. Devido a Lord Ashley ter direitos de propriedade na Carolina, Estados Unidos, Locke participou da elaboração de uma constituição para aquele futuro estado americano. Nesta época começa também a redigir o que seria "O Ensaio sobre o Entendimento Humano" no que trabalhou por mais de 20 anos.

Nos anos passados em Londres, Locke tornou-se também membro da Sociedade Real, onde se procedia a discussões, experiências e demonstrações científicas. A sociedade fora fundada cinco anos antes e, como membro, Locke estava em dia com os avanços científicos. Seus próprios aposentos pessoais eram uma extensão da Sociedade. Seus amigos certamente ansiavam por aquelas horas de alheamento das preocupações diárias em que, na mais cálida amizade, se reuniam nos aposentos de Locke para conversar sobre achados científicos e sobre questões filosóficas. O próprio Locke iniciava os debates e assim discutiu e anotou os pontos de vista sobre o conhecimento humano como rascunho do que 19 anos mais tarde seria o seu famoso "Ensaio".

Como Político
A partir 1667 Lord Ashley ganhou poder, dando um passo na direção do mais alto cargo do reino ao integrar o grupo de cinco membros do ministério do Rei conhecido como a "Cabal", um trocadilho porque as primeiras letras dos nomes de seus cinco membros formavam a palavra cabal, o mesmo que "cabala".

Em 1672 Ashley foi feito Primeiro Conde de Shaftesbury e ao final desse mesmo ano foi nomeado Lord Chanceler da Inglaterra, o mais alto do governo. Na ocasião Locke vinha sofrendo muito com a fumaça e a neblina de Londres; no inverno Locke tossia dia e noite e tinha cada vez maior dificuldade para respirar. Apesar de necessitar sempre da assistência de Locke, Lord Ashley permitiu-lhe umas férias na França. Locke decidiu viajar com um grupo para a França, em caráter de lazer.
Da França Locke foi chamado de volta à Inglaterra por Ashley. Primeiro na função de secretário de benefícios "Secretary of Presentations", onde lhe cabia supervisionar assuntos eclesiásticos que eram afetos à chancelaria de Ashley e, no ano seguinte, como secretário do Conselho do Comércio e Agricultura que Ashley havia criado.

Após dois anos na secretaria do Conselho do Comércio, Locke, incomodado pela asma de que sofria, deixou Londres, voltando para Oxford e decidido a finalizar os estudos requeridos para o bacharelado em Medicina, o que obteve em fins de 1674. No início do ano seguinte foi indicado para uma das duas residências de medicina do colégio. No entanto, receoso da grave situação política, Locke decidiu deixar a Inglaterra e passar uma temporada na França.

Residia em Montpellier e o diário que escreveu desse período contém suas observações sobre lugares, costumes e instituições do país. Contém também muitos pensamentos que depois tomariam forma de postulados no seu "Ensaio sobre o Entendimento Humano". Em Montpellier recebeu a notícia de que Lord Ashley havia sido preso na Torre de Londres. Se estivesse na Inglaterra, teria sido preso com ele, do mesmo modo que outros auxiliares imediatos seus foram detidos.

A permanência de Locke na França deixou de ser apenas interesse seu, quando se tornou tutor do jovem filho de um amigo de Lord Ashley. No caminho entre Montpellier e Paris, onde iria encontrar o jovem discípulo, Locke sofreu o contratempo de uma febre alta e precisou de um mês para recuperar-se e concluir a viagem até a Capital, onde o jovem o aguardava. Em Paris, Locke fez contactos que influenciaram profundamente sua visão da Metafísica e da Epistemologia, principalmente com a escola seguidora de Gassendi e com seu líder François Vernier.

O já falecido Pierre Gassendi, filósofo e cientista, havia criticado a super-especulação na filosofia racionalista de Descartes e defendera o retorno à doutrina de Epicuro, isto é, o retorno ao empirismo, enfatizando a experiência dos sentidos, o hedonismo (sustentando ser o prazer o bem), e a física corpuscular (com a realidade feita de partículas atômicas). Gassendi, como empirista, sustentava que o conhecimento do mundo exterior depende dos sentidos, porém o homem pode, através da razão, derivar muita informação além da evidência ganha empiricamente.

Como Exilado
Após quatro anos na França Locke retornou à Inglaterra e imediatamente para a casa de Lord Ashley. Este havia ficado preso um ano na Torre mas, ao tempo da volta de Locke, já estava livre e fazendo política novamente como presidente do Conselho Privado, enquanto seus inimigos estavam prisioneiros em seu lugar. Locke era novamente seu braço direito.

Lord Ashley, agora Conde de Shaftesbury, como sempre, estava do lado do Parlamento e opondo-se às medidas de Carlos II, defensor do absolutismo. Por outro lado, o herdeiro do trono, James, irmão de Carlos II, era católico, e a maioria protestante liderada por Shftesbutry queria excluí-lo da sucessão.

Em 1681, por não conseguir conciliar os interesses do rei com os do Parlamento, Lord Ashley foi demitido e Carlos II dissolveu o parlamento. Com essa medida as disputas entre realistas e parlamentaristas reacendeu e Lord Ashley pensou organizar uma revolta, mas seus planos foram descobertos e ele e seus auxiliares e amigos passaram a ser muito vigiados. Espiões foram designados para vigiar inclusive Locke. Pelo final do ano o governo tinha evidências suficientes para prender Lord Ashley de novo, mas acabou sendo absolvido por um jure de Londres. Lord Ashley fugiu para a Holanda, onde veio a falecer no início de 1683.

A fama de Hobbes, morto em 1679, foi logo sucedida pela de John Locke, mas sua permanência na Inglaterra tornou-se politicamente insustentável. Em 1683 uma carta enviada da Corte ao reitor do Christ Church College advertia que Locke, que era da casa do Lord Ashley, havia se comportado em várias ocasiões desobedientemente para com o governo. Locke apresentou sua defesa em uma carta e recebeu de um amigo, Lord Pembroke, a garantia de que havia limpado seu nome com o Rei. Porém, Locke decidiu refugiar-se na Holanda por garantia, confiando a um amigo íntimo, o parlamentar Edward Clarke, seus interesses na Inglaterra.

No ano seguinte seu nome foi incluído numa lista enviada ao governo holandês de 84 traidores procurados pelo governo Inglês. Para escapar de ser preso e deportado, Lockeprudentemente mudou de nome, fazendo-se chamar Dr. Van der Linden. Para se proteger melhor, Locke mudava-se de uma cidade para outra e visitava furtivamente seus amigos.

No exílio sua saúde melhorou e fez muitos amigos entre os intelectuais holandeses, podendo dedicar-se mais à medicina. Lá fez amigos e teve tranqüilidade para colocar em ordem seus pensamentos sobre as questões filosóficas que o preocupavam e, principalmente, escrever mais alguns capítulos do Essay Concerning Human Understanding e do Letters on Toleration. Foi nessa época, em 1686, que Isaac Newton comunica à Royal Society de Londres sua hipótese sobre a gravitação universal e Leibniz escreve obras importantes (o Discurso de Metafísica e o Systema Theologicum).

Locke permaneceu na Holanda até 1688, quando Jaime II, coroado em 1685, foi derrubado. O casamento de Carlos II não deu filhos. Pouco antes dele morrer, Catarina levou-o a reconciliar-se com a Igreja Católica. Parecia que o exílio na Holanda iria ser longo para Locke. O rei católico, irmão e sucessor de Carlos II, tentou sufocar a igreja anglicana. O Parlamento reagiu e o depôs, obrigando-o a fugir para a França. Foi a célebre "Revolução Gloriosa".

Essa "Revolução sem sangue e gloriosa" ("the glorious bloodless revolution") havia cumprido os ideais de Shaftesbury e Locke e, finalmente, a Inglaterra se tornara monarquia constitucional, controlada pelo Parlamento. A partir de Guilherme III o monarca inglês é figura decorativa. Após esta revolução tornaram-se maiores a liberdade do indivíduo nas cortes de justiça, a tolerância religiosa e a liberdade de pensamento e expressão. Encorajado a voltar para a Inglaterra pela mudança política, Locke pôs seus negócios em ordem, fez as malas e partiu para a Inglaterra em 1689.

Por ocasião de seu regresso à Inglaterra Locke contava cinqüenta e sete anos e, devido aos seus problemas de saúde motivados pela poluição de Londres, deixava a cidade tantas vezes quanto possível para ir ao interior. Por causa dessas viagens Locke acaba por se hospedar na mansão de Oates, uma pequena propriedade rural pertencente Sir Francis e Lady Masham.

Sua anfitriã era filha de Ralph Cudworth, professor platonista de Cambridge, a quemLocke admirava pelo tipo de teologia liberal. Uma crescente afinidade intelectual com essa família levou-o a aceitar a oferta de moradia em casa de Lady Masham. Sua saúde melhorou e de lá continuou a manter uma certa influência política como líder intelectual dos parlamentaristas Whigs. A maior tarefa deste último período de sua vida, no entanto, seria a publicação de seus trabalhos, os quais eram o produto de longos anos de gestação. Encontrou editor para seus dois grandes trabalhos logo que retornou; o famoso Ensaio Sobre o Entendimento Humano, e o igualmente importante Dois Tratados Sobre o Governo Civil. Publicou este último trabalho anonimamente e, de tão determinado a ocultar sua autoria dessa obra destruiu todas as cartas e manuscritos a ela referentes.

Em março de 1690 apareceu o longamente esperado "Ensaio sobre o Entendimento Humano" (Essay concerning Human Understanding), sobre o qual havia trabalhado intermitentemente desde 1671. O livro alcançou sucesso imediato e provocou uma volumosa literatura de ataque e resposta. De uma parte os jovens queriam introduzi-lo na universidade e de outro, as elites se reuniram para descobrir um meio de suprimi-lo. Uma versão simplificada do Ensaio foi publicada como introdução para estudantes universitários. Novas edições revistas surgiram em 1694, 1695, e 1700.

Parece que a partir do simples gosto por cuidar da saúde das crianças, Lockedesenvolveu um interesse por normas úteis à sua educação. Ele havia escrito a Clarke, da Holanda, uma série de cartas aconselhando-o quanto à melhor educação de seu filho. Estas cartas formaram a base de seu influente Alguns Pensamentos Relativos à Educação, saído em 1693, criando novos ideais no campo da educação.

Em 1695 Locke publicou um tratado religioso com um elevado apelo por um cristianismo menos dogmático, intitulado The Reasonableness of Christianity, onde vê as escrituras como uma coleção de escritos destinados por Deus para a instrução do grosso analfabeto da humanidade no caminho da salvação, e, portanto, de modo geral e nas questões principais, para ser entendida no sentido pleno e direto de palavras e frases. Publicou essa obra anonimamente.

Retornou ainda uma vez à vida pública quando, em 1696, foi escolhido pelo Rei para ser um dos Comissários para Comércio e Agricultura. Para cumprir suas obrigações Locke foi forçado a mudar-se de Oates para Londres, a despeito do agravamento de sua asma. Neste cargo Locke tratava de assuntos de comércio com as colônias e agricultura, exercendo uma mão firme dentro do conselho. Quatro anos mais tarde decidiu afastar-se do Conselho devido principalmente a sua saúde decadente.

Nos anos seguintes Locke raramente deixou Oates. e ocupou-se, principalmente, de responder a críticas ou revisar edições de seus trabalhos. Uma das críticas teve repercussão maior; foi a de Edward Stillingfleet, bispo de Worcester que, em seu Vindication of the Doctrine of the Trinity (1696), atacou a nova filosofia. Sua crítica chamou atenção para um dos pontos menos satisfatórios do "Ensaio", a explicação da idéia de "substância". Locke respondeu no início de 1697 em A Letter to the Bishop of Worcester. Stillingfleet retrucou poucos meses depois e Locke aprontou logo uma segunda carta. Stillingfleet fez nova replica em 1698 e uma extensa carta de Lockeapareceu em 1699, ano em que a polêmica foi interrompida pela morte do bispo.

Ao fim de sua vida Locke ficou extremamente doente ao ponto de não poder levantar-se do leito. Faleceu a 28 de outubro de 1704, aos 72 anos. Foi enterrado na igreja paroquial de High Laver.

A Origem das idéias
A principal preocupação de Locke em sua teoria do conhecimento foi combater doutrina difundida por Descartes, da existência de idéias inatas na mente do homem. Para Lockea mente humana era como uma folha em branco que receberia impressões através dos sentidos, a partir das experiências do indivíduo (empirismo), sem trazer consigo do nascimento, quaisquer idéias tais como a de "extensão", de "perfeição" e outras, como pretendia Descartes. Locke achava que o conhecimento, a formação de idéias, começava pelos sentidos, conforme se vê na descrição "Das idéias simples", em seu "Ensaio sobre o Entendimento Humano".

Disse: "Somente são imagináveis as qualidades que afetam aos sentidos."..."E se a humanidade houvesse sido dotada de tão somente quatro sentidos, então, as qualidades que são o objeto do quinto sentido estariam tão afastadas de nossa noticia, de nossa imaginação e de nossa concepção, como podem estar agora as que poderiam pertencer a um sexto, sétimo ou oitavo sentidos"...que talvez existam em outras criaturas "em alguma outra parte deste dilatado e maravilhoso universo". Para ele todas as idéias viriam ou da experiência de sensação ou da experiência de reflexão.

A sensação
Sobre a sensação ele diz: "Em primeiro lugar, nossos sentidos, que têm trato com objetos sensíveis particulares, transmitem respectivas e distintas percepções de coisas à mente, segundo os variados modos em que esses objetos os afetam, e é assim como chegamos a possuir essas idéias que temos do amarelo, do branco, do calor, do frio, do macio, do duro, do amargo, do doce, e de todas aquelas que chamamos qualidades sensíveis. ...a chamo sensação".

Locke utiliza o termo "idéia" com um significado amplo. Inclui todos os diferentes modos da experiência de consciência: representação e imagem, percepção, conceito ou noção, sentimento, etc. um uso muito diverso do que, por exemplo, faz Platão.

Idéias de qualidades primárias e secundárias
Locke chama de qualidades primárias, aquelas idéias que concebemos por influência direta do objeto. "Assim consideradas, as qualidades nos corpos são, primeiro, aquelas (idéias) inteiramente inseparáveis do corpo, qualquer que seja o estado em que se encontre. Por exemplo, tomemos um grão de trigo e dividamo-lo em duas partes; cada parte tem (a idéia de) solidez, extensão, forma e mobilidade. ... e si se segue dividindo até que as partes se tornem imperceptíveis, reterão necessariamente, cada uma delas, todas essas qualidades."

Em segundo lugar, há idéias de qualidades tais que em verdade não correspondem a nada nos objetos mesmos, mas sim, a poderes que os objetos têm de produzir indiretamente em nós diversas sensações. Sua aparência, forma, volume, textura e ou movimento de suas partes imperceptíveis, e assim são as cores, os sons, os gostos, cheiros, etc.

A estas, Locke chama "qualidades secundárias", e teoria que, do mesmo modo como as coisas produzem em nós as idéias de qualidades primárias, também produzem as idéias das qualidades secundarias, ou seja, pela operação de partículas imperceptíveis sobre nossos sentidos. As qualidades secundárias dependeriam das qualidades primarias.

Quando Locke disse tocante às cores e cheiros, pode entender-se também respeito a gostos, sons e demais qualidades sensíveis semelhantes, as quais, qualquer que seja a realidade que equivocadamente lhes atribuímos, não são nada em verdade nos objetos mesmos, sino poderes de produzir em nós diversas sensações, e dependem de aquelas qualidades primarias, a saber: volume, forma, textura e movimento de suas partes, como já disse.

As idéias das qualidades primárias são semelhanças com algo que está nos corpos, mas as qualidades secundárias, nada há nos corpos que se lhes assemelhem. Nos corpos somente há as ditas qualidades primárias que, no entanto, podem, por variação de volume, forma e movimento das partes imperceptíveis dos corpos mesmos produzir em nós essas sensações que são secundárias; como a idéia de doce, azul, quente, etc.

Classificação das idéias.
Essa classificação geral em idéias de sensação e de reflexão tem duas categorias cada uma: Idéias simples e idéias complexas.

Idéias simples
São aquelas que não podem ser distinguidas em diferentes idéias, como quente, frio, branco, etc., e Idéias complexas as que são produzidas pelo entendimento por repetição, comparação, união de idéias simples. E nada há mais claro para um homem que a percepção clara e distinta que tem das idéias simples; a frialdade e a dureza, que um homem sente em um pedaço de gelo, são, na mente, idéias tão distintas como o aroma e a brancura de um lírio, ou como o sabor do açúcar e o aroma de uma rosa. No entanto, tem sido demonstrado por alguns autores que certos exemplos de idéias simples dados por Locke são na verdade idéias complexas.

Idéias complexas
A mente tem o poder de considerar as varias idéias unidas, como uma só idéia. As idéias complexas são aquelas produzidas pelo conhecimento repetindo, comparando ou unido idéias simples. Às idéias assim feitas de varias idéias simples unidas Locke chama "idéias complexas". Exemplo: beleza, gratidão, um homem, um exército, o universo. As idéias simples são os elementos das idéias compostas, seja combinada na idéia de uma coisa única, como por exemplo, a idéia de homem ou de ouro, seja combinada em idéias de coisas compostas, mas que continuam representando coisas distintas, como são as idéias de relação, como a de filiação, que une, sem alterá-las as idéias de pai e filho.

Qualquer que seja a maneira como as idéias complexas se compõem e descompõem, e ainda quando seu número seja infinito, e não tenha término a variedade com que enchem e ocupam os pensamentos dos homens, sem embargo me parece que podem compreender se todas dentro de estes três capítulos:
1) Os modos.
2) As substancias.
3) As relaciones.

Modos
Desculpando-se por usar a palavra em um sentido um tanto diferente do significado habitual, Locke chama "modos" as idéias complexas originárias de qualquer combinação, e que não subsistem por si mesmas. Tais são as idéias significadas pelas palavras triângulo, gratidão, assassinato, poder, identidade, ou um número, por exemplo.

Subdivisão dos modos.
Locke distingue duas classes de modos, simples e compostos ou mistos.
Nos primeiros a idéia simples combina-se consigo mesma, como a idéia de número, que resulta da combinação das idéias de unidades; ou a de espaço, proveniente da combinação das idéias de partes homogêneas. A idéia do Infinito é um modo simples, resultante da repetição ilimitada da unidade homogênea de número, duração e espaço. Também a idéia de Poder é um modo simples, formado pela repetida experiência de modificações comprovadas nas coisas sensíveis e no próprio homem por um determinado agente. Os modos compostos, ou mistos, derivam da combinação de várias idéias simples diferentes, heterogêneas. Exemplos: a idéia de beleza, que consiste em uma certa composição de várias idéias de cor e forma que produz gozo no espectador.

Substância
Locke define Substâncias segundo diz a própria palavra, coisas que subsistem por si; seria o caso da idéia de homem entre outras. A Substância não é mais que o conjunto de idéias simples, que a experiência mostra sempre de forma agrupadas: o ouro é dúctil, denso, amarelo, etc. O substrato daquilo que os sentidos nos transmitem é incognoscível. A substância, como coisa em si, existe, mas não se pode saber o que seja, e a única investigação possível é a pesquisa experimental das idéias de qualidade que lhes atribuímos: conjunto de idéias simples de sensação.

Objeta-se a Locke que tomar "substância" como um substrato que imaginamos para as coisas é uma simplificação inaceitável. Ao contrário dos modos, subsistem por si mesmas e são singulares ou coletivas. Substâncias singulares são aquelas combinações de idéias simples que se supõe representam distintas coisas particulares que subsistem por si mesmas. Assim, se a substancia se une a idéia simples de um certo cor esbranquiçado apagado, com certos grados de peso, de dureza, de ductibilidade e de fusibilidade, teremos a idéia do chumbo. Substâncias coletivas são aquelas combinações de idéias reunidas, como um exército de homens, ou um rebanho de ovelhas; essas idéias coletivas de varias substancias assim reunidas, são, elas mesmas, uma idéia única, complexa, como o é, por exemplo, a de homem.

Alma
Analogamente a substância, é um conjunto de idéias de reflexão.

A relação
Terceiro, a última espécie de idéias complexas é a que Locke chama "relação", que consiste na consideração e comparação de uma idéia com outra. Assim são as propriedades de relações matemáticas como quadrado, triangular, etc. São relações em termos de propriedades relacionais matemáticas como o quadrado, o triângulo, etc.

A verdade
O conhecimento é a "percepção das conexões de um acordo, ou desacordo e repugnância entre nossas idéias". Este acordo ou desacordo pode ser de quatro tipos: identidade ou diversidade, relação, coexistência ou conexão necessária, existência real. O conhecimento humano, segundo Locke, se apóia:

1. na experiência do mundo exterior adquirida através dos sentidos e
2. sobre aquilo do mundo interior de fatos psíquicos obtidos através da introspecção (ou reflexão).

No primeiro caso, o acordo ou desacordo é percebido imediatamente, por intuição; no segundo, ele é percebido através da demonstração, mediante a mediação de uma terceira idéia, porém cada passo na demonstração é ela mesma uma intuição, uma vez que o acordo ou desacordo entre duas idéias comparadas será imediatamente percebido. Isto reduz todo o processo à pura intuição estruturada em reflexão e a própria certeza é intuitiva.

Portanto, apesar de que o conhecimento se origina na experiência sensível e introspectiva, isto é apenas o começo; porque muitos outros fatores têm que ser cuidados também - fatores tais como o raciocínio, o qual habilita uma pessoa a deduzir, de proposições empiricamente baseadas, conclusões mais gerais a respeito do mundo, tanto físico quanto mental. Tal raciocínio pode ser indutivo (parte do particular para as leis gerais) ou ele pode ser dedutivo (o geral rege o particular).

O raciocínio matemático, por exemplo, é dedutivo; e este tipo de conhecimento é somente para ser entendido. Locke adverte que as proposições da Matemática e da Ética são demonstráveis, porém se referem à combinação de idéias complexas geradas na própria mente: não são garantia de qualquer coisa fora da mente. Os conhecimentos matemático e ético envolvem relações entre idéias e não pretendem coisas de existência real. Por isso suas proposições não são garantia de qualquer coisa fora da mente. Assim, os conhecimentos matemáticos e éticos podem ser firmemente estabelecidos, porque envolvem relações entre idéias e não pretendem coisas de existência real.

A intuição, permite discernir as relações entre afirmações (relações) que garantem a extração de inferências. Através de tais intuições intelectuais, o conhecimento necessário e universal é possível. Porém, a dedução permite a certeza em apenas dois casos; quando se trata do conhecimento de coisas que realmente existem, só existem duas certezas: nossa existência, por intuição, e a existência de Deus, por demonstração. Quanto ao Eu, a certeza intuitiva é proveniente da reflexão (um encadeamento de intuições), que o homem tem de sua própria existência: certeza da existência do nosso Eu (Descartes). Locke concorda com Descartes em que a existência do Eu está implicada em cada estado de consciência.

Quanto a Deus, se existem seres inteligentes, deve existir uma causa inteligente. É a certeza demonstrativa da existência de Deus por demonstração: da existência do efeito (o mundo) se infere a existência da causa que o produziu (prova a posteriori). Locke concluiu que, no caso dos seres humanos, o conhecimento intuitivo está limitado em extensão na maioria dos casos, conhecimento é somente provável, e Locke examinou os graus de probabilidade e a natureza da evidência.

A respeito da existência de Deus, sua prova está em nossa própria existência. Uma pessoa sabe intuitivamente que ela é algo que existe. Ela sabe que o nada não pode produzir qualquer coisa e então, se ela existe, esta é uma demonstração de que, por toda a eternidade antes dela, existiu aquele que a criou e criou todas as coisas. Esse argumento é do tipo cosmológico.

Além do conhecimento propriamente (intuitivo e demonstrativo) Locke reconhece um terceiro grau de conhecimento, que não faz jus estritamente a esse nome. Este é nossa apreensão sensível das coisas externas, ou de objetos reais além de nós mesmos e Deus: é a certeza por sensação referente aos corpos exteriores ao homem: certeza da existência das coisas externas por meio da sensação. À esta certeza proveniente da correspondência das idéias à realidade Locke faz corresponder também a verdade encontrada na área das ciências experimentais, área do conhecimento na qual a certeza das ciências ideais (matemáticas e morais) não está presente.

Locke reconheceu que as ciências naturais não podem dar certeza completa. O conhecimento empírico derivado dessa fonte é incerto e nunca propicia mais que probabilidade, enquanto o ideal do conhecimento é a certeza. A certeza no domínio das ciências experimentais, dependeria do critério de verificação da adequação entre as idéias que estão na mente humana e a realidade exterior a ela. No entanto, cuidadoso raciocínio, com a aplicação de raciocínio matemático onde possível, irá aumentar a probabilidade de atingir conhecimento verdadeiro nesse campo.

A Vontade
Um outro aspecto da mente humana com a qual lida Locke é o da Vontade. Lockereconhece a existência da vontade humana afirmando que os homens estão basicamente estruturados para experimentar as sensações de dor e prazer, e que toda ação é o resultado de um movimento no sentido de um ou movimento de afastamento do outro. Ele escreve: "A dor tem a mesma eficácia que o prazer tem e, costumeiramente nos predispõe ao trabalho, estando nós tão prontos a empregar nossas faculdades para evitar a dor, como a perseguir o prazer". Porém mais adiante, no entanto, expressa o pensamento de que o homem é capaz de escolher por si mesmo o que é agradável ou penoso, apesar de possuir instalado pelo criador o mecanismo que dirige o homem para o prazer e para fugir da dor.

Natureza Humana
Em todos essas questões sociais e políticas Locke via que o fator último é a natureza do homem. Locke tinha consciência deste ponto ao escrever seu trabalho sobre a Lei da Natureza em 1662. Locke explica a vontade humana afirmando que os homens estão basicamente estruturados para experimentar sensações de dor e prazer, e que toda ação é o resultado de buscar um ou fugir do outro. Para entender o homem, no entanto, não é suficiente observar suas ações, é necessário também perguntar pela sua capacidade de conhecimento. Para Locke, os homens nascem livres e com direitos iguais: "nascemos livres na mesma medida em que nascemos racionais". O governo e o poder político são necessários, mas assim também é a liberdade do cidadão: e em um tipo de governo democrático, monarquia constitucional, um tipo de governo é possível no qual o povo ainda é livre.

Estado natural
Em primeiro lugar, no Estado Natural não tem governo como nas sociedades políticas, falta uma lei estabelecida, fixa e conhecida; mas os homens estão sujeitos à lei moral, que é a lei de Deus. No entanto, apesar de que a lei natural é clara e inteligível para todas as criaturas racionais, os homens, sem embargo, têm tendência a não considerá-la como obrigatória quando se refere a seus próprios casos particulares. Em segundo lugar, falta no estado de natureza um juiz público e imparcial, com autoridade para resolver os pleitos que surjam entre os homens, segundo a lei estabelecida. Em terceiro lugar, falta no estado de natureza um poder que respalde e dê força a uma causa justa. Aquele que por injustiça cometa alguma ofensa, lhes é possível fazer que sua injustiça impere por meio da força.

No Estado Natural os homens seriam iguais, independentes e governados pela razão. Porque no estado de natureza (omitindo agora a liberdade que se tem para desfrutar de prazeres inocentes), um homem possui dois poderes:

1 - O primeiro é o de fazer tudo o que lhe pareça oportuno para a preservação de si mesmo e dos outros, dentro do que lhe permite a lei da natureza. Por virtude dessa lei, que é comum a todos eles, ele e o resto da humanidade são uma comunidade, constituem uma sociedade separada das demais criaturas. E se não fora pela corrupção e maldade de homens degenerados, não haveria necessidade de nenhuma outra sociedade, e não haveria necessidade de que os homens se separassem desta grande e natural comunidade para reunir-se, mediante acordos declarados, em associações pequenas e afastadas umas das outras.
2 - O outro poder que tem o homem no estado de natureza é o poder de castigar os crimes cometidos contra essa lei. A ambos poderes renuncia o homem quando se une a una sociedade política particular ou privada, se podemos chama-la assim, e se incorpora a um Estado separado do resto da humanidade.

Propriedade
Locke argumenta que, quando os homens se multiplicaram a terra se tornou escassa, fizeram-se necessárias leis além da lei moral ou lei da natureza. Isto o leva a querer unir-se em sociedade com outros que, tanto quanto ele, tenha a intenção de preservar suas vidas, sua liberdade e suas posses, e a tudo isso Locke chama de propriedade. Mas não é esta a causa imediata da constituição do governo.

O direito à propriedade seria natural e anterior à sociedade civil, mas não inato. Sua origem residiria na relação concreta entre o homem e as coisas, através do processo do trabalho. O trabalho é a origem e justificação da propriedade. Se, graças a este o homem transforma as coisas, pensa Locke, o homem adquire o direito de propriedade.

Locke considera que, no seu estado natural, o homem é senhor de sua própria pessoa e de suas coisas, e não está subordinado a ninguém. O resultado que está sujeito constantemente à incerteza e à ameaça dos demais pois no estado natural um é rei tanto quanto os demais, e como a maior parte dos homens não observa estritamente a equidade e a justiça, o desfrute da propriedade que um homem tem em uma situação dessas é sumamente inseguro.

Origem da sociedade
Porque o homem teria criado a sociedade? Devido à ameaça à propriedade, à conservação da liberdade e a aspiração de igualdade. Para evitar a concretização dessas ameaças o homem teria abandonado o estado natural e criado a sociedade política. A sociedade civil tem origem quando a lei moral não é mais respeitada e o homem precisa exercer seu direito natural de punir os transgressores.

Faz-se necessária então a administração da Lei conferida, por via de um compromisso social ou contrato a oficiais autorizados. Por traz destes postulados está a idéia da independência do indivíduo. No primeiro e no segundo "Tratado sobre o Governo Civil",Locke sustenta que o estado da sociedade e, conseqüentemente, o poder político, nascem de um pacto entre os homens. Antes desse acordo os homens viveriam em estado natural, tal como pensava Hobbes. Ao entrar em sociedade, os homens renunciam à igualdade, à liberdade e ao Estado Natural.

Segundo Hobbes, no Estado Natural, todos os homens teriam o destino de preservar a paz e a humanidade e evitar ferir os direitos dos outros (deveres que Locke considera próprio do estado natural). O pacto social primordial seria apenas um acordo entre indivíduos reunidos para empregar sua força coletiva na execução das leis naturais renunciando a executá-las pelas mãos de cada um. Seu objetivo seria a preservação da vida, da liberdade e da propriedade.

O Governo
Locke acreditava que a liberdade que o povo podia ter não era absoluta e que o povo cedia parte dessa liberdade a fim de manter a segurança. O Governo, diz Locke, é uma delegação; seu propósito é a segurança da pessoa e da propriedade dos cidadãos, e os indivíduos teriam o direito de retirar sua confiança no governante quando este falha na sua tarefa. Por conseguinte, o grande e principal fim que leva a os homens a unir-se em estados e a colocar-se sob um governo, é a preservação de sua propriedade.

Na sociedade política, pelo contrato social, as leis aprovadas por mútuo consentimento de seus membros e aplicadas por juizes imparciais manteriam a harmonia geral entre os homens. Os homens transferem à comunidade social, através do pacto, o direito legislativo e executivo individuais. O soberano seria, assim, o agente executor da soberania do povo.

O acordo que dá legitimidade ao governo é por sua vez fundamentado nos dois direitos do homem na sociedade natural: o de sua preservação e de seus bens e o de castigar a infração à lei natural. Neste acordo vê Locke o fundamento da legitimidade do poder legislativo e do poder executivo. Isto cria o desejo de cada renunciar ao poder de castigar que tem, e de entregá-lo a una sola pessoa para que o exerça entre eles; isto é o que os leva a conduzir-se segundo as regras que a comunidade, ou aqueles que tenham sido por eles autorizados para tal propósito, há acordado.

O homem renuncia ao primeiro poder que tem no estado natural, o de empregar a própria força para se defender, confiando essa tarefa ao governo. Esse poder é abandonado pelo homem para reger-se por leis feitas pela sociedade, na medida em que a preservação de si mesmo e do resto dessa sociedade o requeira; e essas leis da sociedade limitam em muitas coisas a liberdade que o homem tinha quando obedecia apenas à lei da natureza.

Em segundo lugar, o homem renuncia ao segundo poder que tem no estado natural, o de empregar a própria força para castigar os infratores confiando essa tarefa ao governo, segundo poder este que podia empregar antes na execução da lei da natureza, tal e como ele quisera e com autoridade própria.

Neste novo Estado, no qual vai desfrutar de muitas comodidades derivadas do trabalho, da assistência e da associação de outros que laboram unidos na mesma comunidade, assim como da proteção que vai a receber de toda a força gerada por dita comunidade, há de compartir com os outros algo de sua própria liberdade na medida que lhe corresponda, contribuindo por si mesmo ao bem, a prosperidade e a seguridade da sociedade. No entanto, o contrato social não implica submissão ao governo.

O Estado
Locke distingue o processo do contrato social criador da comunidade, do subseqüente processo pelo qual a comunidade confia o poder político a um governo, embora contratualmente relacionados entre si, os integrantes do povo não estão contratualmente submetidos ao governo. O mesmo homem que confia o poder é capaz de dizer quando se abusa do poder. A renúncia ao poder pessoal somente pode ser para o melhor, e por isso o poder do governo e legislatura constituída pelos homens no acordo social não pode ir alem do requerido para as finalidades desejadas.

Mas ainda que os homens, ao entrar em sociedade, renunciam a igualdade, a liberdade e ao poder executivo que tinham no Estado de Natureza, pondo todo isto em mãos da sociedade mesma para que o poder legislativo disponha, segundo o requeira, o bem da sociedade. Essa renúncia é feita por cada um com a exclusiva intenção de preservar-se a si mesmo e preservar sua liberdade e sua propriedade da melhor maneira, já que não pode supor-se que criatura racional alguma mude sua situação com o desejo de ir a pior.

Por isso o poder da sociedade e a legislatura constituída por ela não podem supor que vá mais além do que pede o bem comum, senão que tenha de obrigar-se a assegurar a propriedade de cada um, protegendo a todos contra aquelas três deficiências que mencionávamos mais acima e que faziam do Estado de Natureza uma situação insegura e difícil. E assim, quem quer que ostente o poder legislativo supremo num Estado está obrigado a governar segundo o que ditem as leis estabelecidas, promulgadas e conhecidas do povo e não mediante decisões imprevisíveis; há de resolver os pleitos por juizes neutros e honestos, de acordo com as ditas leis; e está obrigado a empregar a força da comunidade, exclusivamente, para que essas leis se executem dentro do país; e se tratar-se de relações com o estrangeiro, deve impedir ou castigar as injúrias que venham de fora, devem proteger a comunidade contra incursões e invasões. E tudo isto não deve estar dirigido a outro fim que não seja o de conseguir a paz, a segurança e o bem do povo.

O Absolutismo
Locke é radicalmente contra a justificativa do absolutismo porque a doutrina da monarquia absolutista coloca o soberano e os súditos em guerra entre si. Porém, considerava aceitável um povo substituir seu soberano ou governo se ele faltasse com sua parte do compromisso. Sempre que um governante confisca e destrói a propriedade do povo, ou o reduz à escravidão, esse governante se coloca em estado de guerra com o povo. A partir daí os súditos estão dispensados de qualquer obediência, e podem recorrer ao recurso comum, que Deus deu a todo homem, contra a força e a violência.

A opinião de Locke sobre a rebelião do povo é contrária à de Hobbes para quem o pacto social era a fonte do poder absoluto do monarca. Hobbes achava que a rebelião dos cidadãos contra as autoridades constituídas, só se justifica quando os governantes renunciam a usar plenamente o poder absoluto do Estado. Contra essa tese, Lockejustifica o direito de resistência e insurreição não pelo desuso, mas pelo abuso do poder por parte das autoridades. Quando um governante se torna tirano, coloca-se em estado de guerra contra o povo.

Religião
Locke era religioso e considerou tornar-se pastor, porém não era um puritano. Em seu pensamento religioso Locke foge da linha tradicional tanto quanto seus pensamentos contidos no "Ensaio". Não critica a Bíblia, porém, examina livremente as escrituras com a mesma objetividade de sua filosofia. Com essa atitude chega a conclusões bastante simples, que são um marco na história da teologia liberal, basicamente em acordo com a fé cristã. Na sua concepção da natureza da religião, ele a descreve como consistindo quase inteiramente em uma atitude de fé intelectual. Em sua opinião, o povo necessita de assistência moral e não de dogmas teológicos ou inspiração intelectual. O propósito do tratado Resonableness of Christianity (1695) é o de lembrar aos homens das controvérsias das escolas teológicas até a simplicidade dos evangelhos como regra da vida humana.

Uma Igreja, de acordo com Locke, é uma sociedade voluntária e livre com o propósito de adorar a Deus. O valor da adoração depende da fé que a inspira. O estado não interfere exceto em relação aos católicos e ateus, os primeiros porque professam obediência a um príncipe estrangeiro e os segundos porque não se pode confiar neles em questões morais como a obediência ao contrato social. "O negócio do Estado, diz ele, não é garantir a verdade das opiniões mas a segurança da comunidade, e de modo muito particular a pessoa e os bens do homem". A Epistola de Tolerantia (Carta a respeito da tolerância) é um apelo à tolerância religiosa; foi publicada anonimamente em 1689, porém era um tema que Locke vinha trabalhando desde seus primeiros tempos em Oxford. Suacorrespondência e um trabalho por ele escrito em 1667 mostram seu apoio pela tolerância religiosa, apesar de ter escrito, em 1669, dois outros considerados surpreendentemente conservadores.

A posição de Locke, em relação à religião assim se resumia:

1. Nenhum homem tem tão completa sabedoria e conhecimento que possa ditar a forma da religião de outro homem;
2. Cada indivíduo é um ser moral, responsável perante Deus, e isto pressupõe sua liberdade; e
3. Nenhuma coerção que é contrária à vontade do indivíduo pode assegurar mais que uma conformidade aparente.

Seu Common-Place Book (caderno de anotações) indica que a questão já o preocupava mais de vinte anos antes da publicação da primeira "Carta". Se os magistrados deviam ou não ter sob sua alçada as questões religiosas era um assunto acidamente discutido, pela assembléia dos Divinos (teólogos), ao tempo que era aluno em Westminster e quando entrou na Christ Church, o reitor era John Owen, líder dos independentes.

De interesse religioso são também três da obras que vieram a lume após sua morte: Comentários sobre as epístolas de São Paulo, e o Discourse on Miracles, tanto quanto um fragmento de Fourth Letter for Toleration e An Examination of Father Malebranche s Opinion of Seeing all things in God, e mais Remarks on Some of Mr Norris s Books.

Educação
Seu ponto de vista era de que a educação devia ter fins práticos, de preparar o homem para a vida, e não para o deleite intelectual e o êxito universitário. Os livros Thoughts concerning Education ("Pensamentos sobre a Educação") e Conduct of the Understanding ("Condução do Conhecimento") tem lugar importante na história da filosofia educacional. Neles Locke enfatizou o valor da experiência no desenvolvimento da mente, porém desconsidera radicalmente as diferenças genéticas.



Guilherme SM - John Locke - in. Link Origins, Internet, disponível em http://linkorigins.blogspot.com.br, revisto em 2014





Estas página são, predominantemente, resumos do artigo John Locke, in. Filosofia Moderna - Rubem Queiroz Cobra
COBRA.PAGES.nom.br, Internet, Brasília, 1997. Disponível na internet em Filosofia Moderna


Jean-Paul Sartre

O mais famoso filósofo existencialista ateu e criador da Psicanálise Existencial
| Filosofia |

Jean-Paul Sartre, novelista francês, teatrólogo, e maior intelectual do Existencialismo, - filosofia 
 que proclama a total liberdade do ser humano. Foi premiado com o Nobel de literatura de 1964, que desconsiderou.

Infância e juventude
Sartre nasceu em 21 de junho de 1905 e faleceu em 15 de abril de 1980, em Paris. Ficouórfão de pai muito cedo. O pai, oficial da marinha, faleceu ainda jovem, dois anos depois do nascimento do filho. Foi, com sua mãe, Anne-Marie Schweitzer, viver em casa de seu avô materno, Carl Schweitzer, de origem alsaciana e protestante, professor de Alemão na Sorbone, em um apartamento no sexto andar de um edifício em Meudon, nos arredores da capital, nas proximidades do Jardim de Luxemburgo. O célebre pastor Albert Schweitzer, prêmio Nobel da Paz de 1952, era sobrinho de seu avô, primo de sua mãe.

Sartre estudou primeiro no Liceu Henrique IV, em Paris. Mais tarde estudou no liceu em La Rochelle, localidade onde, tendo sua mãe se casado segunda vez, a pequena família passou a residir.

Após o liceu completou sua educação ingressando em 1924 na École Normale Supériure, onde se graduou em 1929. Ainda estudante passou a viver com Simone de Beauvoir (1908-1986) de quem nunca se separou. Na École Normale foi contemporâneo de escritores que viriam a ser intelectuais de renome, como Raymond Aron, Maurice Merleau-Ponty, Emmanuel Mounier, Jean Hippolyte, Claude Lévi-Strauss e a filósofa social esquerdista da escritora Simone Weil, (1909-1943) ativista na Resistência à invasão alemã e ao nazismo, cujas obras publicadas postumamente tiveram grande influência no pensamento social na França e na Inglaterra..

Terminado o curso de filosofia, fez serviço militar em Tours, como meteorologista.

Nos anos que precederam a grande guerra Sartre lecionou, entre 1931 e 1933, no Liceu do Havre; em 1933-34 esteve em Berlim, estudando fenomenologia. De 1934 a 1939 continuou no Havre passando depois para Neuilly-sur-Seine.

Na Alemanha Sartre iniciou a redação de "Melancolia", romance recusado pelos editores e mais tarde publicado com o título "A Náusea".

Influências
No período de um ano passado em Berlim, Sartre estudou a fenomenologia do filosofo alemão Edmund Husserl (1859-1938), as teorias do existencialismo de Heidegger e Karl Jasper (1883-1969) e a filosofia de Max Scheller (1874-1928). A partir desses autores, chegou a Soren Kierkegaard (1813-1855).

Durante os anos que lecionou no Havre, Sartre publicou suas primeiras obras, "A Imaginação" e "A Transcendência do Ego". Nelas, a começar por L”Imagination (1936 - "A Imaginação"), explora o método fenomenológico de Husserl, que propõe a descrição dos objetos como fenômenos mentais sem qualquer idéia preconcebida ou preconceituosa. Porém, foi a publicação do La Nausée (1938 - "A Náusea") que lhe trouxe fama. Esse romance, escrito em forma de um diário, revela os sentimentos de repugnância do personagem Roquentin, em relação ao mundo material inclusive pela consciência de seu próprio corpo. O romance contem em suas páginas grande parte das posições filosóficas que Sartre continuaria depois a desenvolver. Seu herói, Antoine Roquentin, desocupado, duvidoso de si mesmo, vive sozinho, sem amigos, sem amante, nada lhe importando, nem os outros homens, nem ele mesmo, descobre, na vida monótona de Bouville, o mistério metafísico do Ser: o mundo não tem nenhuma razão de existir e é absurdo que exista. "Tudo é gratuito, a jardim, esta cidade, e eu mesmo; quando acontece da gente se dar conta disso, isso atinge o cabeça e tudo começa a flutuar; eis a náusea". Em A “Náusea, Sartre parece bastante próximo de Heidegger.

No ano seguinte, publicou "O Muro" (1939), uma coletânea de contos, e o ensaio Esquisse d”une théorie des émotions (1939 - "Esboço de uma teoria das Emoções"). O muro tem por personagem Pablo Ibietta, é uma denuncia do regime do ditador Franco, da Espanha, sob cujo poder o personagem Pablo Ibietta é preso e torturado. No ano seguinte publicou L”Imaginaire: Psychologie phénoménologique de l”imagination (1940 - "O Imaginário: Psicologia fenomenológica da Imaginação"), um ensaio.

Período da II Grande Guerra
Na primeira fase da guerra mundial Sartre serviu como meteorologista na Lorena, 1940. Caiu prisioneiro quando Hitler invadiu a França, e foi encerrado no campo de concentração de Trier (Treves), na Alemanha ocidental, cidade junto à fronteira com Luxemburgo que foi berço de Karl Marx. No período de sua prisão Sartre escreveu uma peça de teatro que depois não quis contar entre os títulos de suas obras, alegando que fora um trabalho dentro de um contexto particular, e que a havia escrito apenas para levantar o ânimo de seus companheiros de infortúnio. É uma peça natalina, representada pelos prisioneiros no Natal de 1940, e publicada 30 anos mais tarde com o título Bariona, ou Le fils du tonnerre ( "Bariona, ou O filho do trovão"). O drama, de inspiração religiosa, fala de Jesus e de Maria, Sua mãe, que "Trouxe-o no ventre durante nove meses, oferecer-Ihe-á o seio e o seu leite se tornará o sangue de Deus". Foi solto por razões médicas (por um alegado problema de visão) um ano mais tarde, na primavera de 1941. Em liberdade, voltou ao Liceu de Neuilly, passando depois a lecionar no Liceu Condorcet e no Liceu Pasteur, em Paris. Fundou então o grupo Socialismo e Liberdade a fim de atuar junto à Resistência. O grupo produziu panfletos clandestinos contra a ocupação alemã e contra os colaboracionistas franceses.

Em 1943, em plena fase da guerra, fez a primeira publicação de uma peça teatral, "As Moscas", que envolve veladamente o comando alemão e os colaboracionistas, e publicou também o famoso L”Être et le néant (1943 - "O Ser e o Nada"), obra fundamental da teoria existencialista. O "Ser e o Nada" subintitula-se "Ensaio de ontologia fenomenológica" e nele Sartre aprofunda seu pensamento com respeito à consciência humana, como "um nada" em oposição ao Ser. A consciência é "não-matéria", nada, e por isso mesmo escapa a qualquer determinismo. Sendo um "nada, ela "nadifica" seus objetos. A consciência é essencialmente negadora das coisas em-si mesmas, na medida em que se encontra revestida da característica ontológica de ser, ela própria, o seu próprio nada.

A teoria da negatividade da consciência não é senão uma das perspectivas do pensamento de Sartre. Outra é a de que o outro é o "mediador indispensável entre mim e mim mesmo"; precisamos de outrem para conhecer plenamente a nós mesmos. Mas a relação primordial com outrem é o conflito. Todo tipo de relação humana está condenado ao fracasso; através delas nunca atinjo o meu objetivo; a indiferença, o sadismo, o ódio, o masoquismo, o amor, a linguagem, são diversas manifestações da minha tentativa, sempre fracassada, de conviver com outrem. Essas obras e mais "Entre 4 paredes" (1944), rapidamente fizeram dele a mais célebre dos escritores franceses de seu tempo.

Segunda fase filosófica
Sartre lecionou até 1945. Nesse ano dissolveu o movimento Socialismo e Liberdade e fundou com Simone de Beauvoir, Merleau-Ponty (1908-1961), Raymnond Aron (1905-1983) e outros intelectuais, a revista de filosofia Les Temps Modernes ("Os Tempos Modernos"), deixando de lecionar para cuidar deste e de outros empreendimentos literários.

Tendo em uma primeira fase exaltado a liberdade, que em suas obras anteriores parecia ter valor por si mesma, agora, após as lições da guerra, Sartre voltou sua atenção para o conceito de responsabilidade social. Nesta nova abordagem da questão da liberdade ele planejou, em 1945, uma novela em quatro volumes sob o titulo Les Chemins de la liberté ("Os Caminhos da Liberdade") dos quais publicou três: L”Âge de raison (1945 - "Idade da razão"), Le Sursis (1945 - "Sursis"), e La Mort dans l”âme (1949 - "Com a Morte na Alma").

Em lugar do quarto volume de "Os Caminhos da Liberdade", Sartre decidiu que o romance poderia não ser o melhor veículo de suas mensagens e intensifica a produção de peças de teatro. Ele já havia produzido nessa área durante a guerra, e agora escreve vários: Les Mouches (1943), Huis-clos (1944), "Entre Quatro Paredes" (1945), "Mortos sem Sepultura" (1946) e "A Prostituta Respeitosa" (1946), Les Mains sales (1948 - "As mãos sujas"), e continua com Le Diable et le bon dieu (1951 - "O Diabo e o Bom Deus"), Nekrassov (1955), e Les Séquestrés d”Altona (1959 - Seqüestrados de Altona"), esta sobre o problema do colonialismo na Algéria Francesa. Todos essas peças fazem uma abordagem pessimista do relacionamento humano, enfatizando a hostilidade natural do homem para com seu semelhante, porém deixam antever uma possibilidade sempre presente de remissão e salvação.

De 1946 são os ensaios "O existencialismo é um Humanismo", escrito para esclarecer o significado ético do existencialismo, e "Reflexões sobre a Questão Judaica". Outras publicações da mesma época incluem um livro, Baudelaire (1947), um script para o cinema, "Os dadas estão lançados", na critica literária e psicológica "Baudelaire" e um estudo sobre o escritor e poeta francês Jean Genet, com o título Saint Genet, comédien et martyr (1952), "O Fantasma de Stalin (1956), e inúmeros artigos que foram publicados em seu jornal Les Temps Modernes. Porém em 1955 se desentende com Merleau-Ponty, com quem mantinha o jornal, por motivos políticos.

Atividades políticas
Após a II Guerra Mundial, Sartre havia continuado sua atividade política (nascida ao tempo da Resistência aos alemães) com inclinação manifestamente esquerdista, tornando-se um ativo admirador da União Soviética, apesar de nunca ter se filiado ao partido comunista. Em 1954 ele viajou pela Rússia, Escandinavia, África, Estados Unidos, e Cuba. Porém, a entrada de tanques soviéticos em Budapeste em 1956, deixaram Sartredesapontado com o comunismo. Ele escreveu no seu jornal Les Temps Modernes o artigo Le Fantôme de Staline, no qual condenava veementemente a intervenção soviética e a submissão do Partido Comunista Francês aos ditames de Moscou. Essa atitude crítica ensejou mais um livro, Critique de la raison dialectique (1960 - "Crítica da Razão Dialética") livro sobre afinidades do existencialismo com o marxismo. É também de 1960 o ensaio "Questão de Método", e de 1964 é Les Mots ("As Palavras"), uma análise psicológica e existencial de sua própria infância.

Sartre acusava o marxismo de se ter ossificado e que, em lugar de adaptar-se a situações particulares, compelindo cegamente o particular a enquadrar-se em um universal predeterminado. Quaisquer que fossem seus princípios gerais, o Marxismo precisava reconhecer circunstâncias existenciais concretas que diferem de uma comunidade para outra e respeitar a liberdade individual do homem. O projeto de um segundo volume do Critique foi, no entanto, temporariamente suspenso, e publicado em seu lugar o Les Mots, que mereceu o prêmio Nobel, que recusou.

Últimos anos
Muito se tem conjecturado sobre as verdadeiras razões de haver Sartre recusado o prêmio Nobel, as quais, aparentemente, não estariam tão claras para ele mesmo, que acreditava na transparência da consciência. Porém, seria no seu próprio subconsciente, que ele negava existir, que talvez estivesse a resposta. Foi uma criança super-estimulada a ser inteligente e vencedora, o que no íntimo ele talvez não acreditasse ser, sentindo-se um impostor comparado ao célebre pastor, primo de sua mãe, e ao seu próprio avô, figura solene, vastas barbas brancas, que "assemelhava-se a Deus Pai", figuras e exemplos em que pivotaram os estímulos de sua educação infantil. Comparado a esses que seriam para ele os verdadeiros merecedores do prêmio Nobel, - e um deles de fato recebeu o prêmio, - Sartre confessa um idealismo, não uma prática da generosidade, e um certo remorso por não ter sofrido, onde diz, em "As Palavras": "Meu idealismo épico compensará até a minha morte uma afronta que não sofri, uma vergonha que não padeci..."

De 1960 até 1971 a atenção de Sartre concentrou-se no preparo de um estudo em quatro volumes sobre o famoso escritor francês Gustave Flaubert. Dois volumes, com um total de 2.130 páginas apareceu no início de 1971, contendo minuciosas análises freudianas da infância e das relações familiares de Flaubert.

Atividades como conferencias e passeatas como meio de apressar a Revolução socialista passaram depois a ocupar boa parte do tempo de Sartre. Em 1961 viaja para Cuba e Brasil, e aqui foi festivamente recebido pelas esquerdas. Pouco escreveu em 1971. Apesar de tudo, em 1972 publicou o terceiro volume do trabalho sobre Flaubert, com o título L”Idiot de la famille ("O idiota da família"), igualmente denso e de leitura fastidiosa.

Em seus últimos anos Sartre ficou cego e sua saúde declinou até seu falecimento em Abril de 1980 devido a um tumor pulmonar. Teve um funeral impressionante pela massa popular que compareceu, estimada em 25.000 pessoas.

Sobre o aspecto meramente literário de sua obra, se diz que poderia ter colocado sua filosofia de uma forma mais clara e mais breve do que fez em "O Ser e o Nada".

FILOSOFIA
"O Ser e o Nada" tornou-se, como dito, a obra fundamental da teoria existencialista. Nele está contida praticamente toda a filosofia de Jean-Paul Sartre, cujos principais tópicos são comentados abaixo. Porém, Sartre apresentou o seu existencialismo de uma forma muito mais clara e breve em "O Existencialismo é um Humanismo", uma conferência dada em Paris em 1945. Seus seguidores, no entanto, alegam que, nesse ensaio, sua abordagem do assunto é popular e superficial, e não se pode confiar nela como uma exposição do seu pensamento. Mas é importante lembrar que Sartre não é o fundador do existencialismo. O pensador cristão dinamarquês Kierkegaard (1813-1855) é geralmente considerado como o primeiro existencialista moderno.

Existencialismo
Existir no sentido etimológico, é "sair de". "Por exemplo, - diz Sartre em "A Nausea" -, eu me sinto triste; mas tomar consciência de meu desgosto é colocá-lo como um objeto a distancia de mim. Pois o eu que diz “estou triste” não é mais, de modo algum, o eu que está triste. Assim o homem está por sua consciência, sempre além de si mesmo. Eis o sentido do “ex-istencialismo”."

As filosofias existencialistas aparecem sob diversas formas, sendo que a divisão mais radical é entre o ponto de vista religioso e o ateu. Sartre é o fundador e principal pensador dessa última corrente.

O nada
A influência do idealista G. W. F. Hegel em Sartre torna-se aparente quando o filósofo tenta interpretar tudo pelo método dialético, isto é, através de uma tensão de opostos. A dialética do "ser-um-com-o-outro" do homem é central: ver e ser visto corresponde a dominar e a ser dominado. Ser e não ser, como em "O Ser e o Nada" é outro exemplo dessa influência hegeliana, em que o confronto é entre a consciência e o seu objeto..

Como de resto todos os fenomenologistas, Sartre tem como ponto de partida o caráter intencional da consciência. Todo modo de consciência representa algo, revela algo, apresenta algo, está voltado e direcionado para algo fora dela mesma, daí dizer-se que a consciência é intencional. Ela não existe sem estar voltada, sem estar representando, criando a presença de um objeto. Os objetos da consciência são reais, ainda que alguns sejam ideais, eles existem como fenômenos, - como imagens -, e porque existem Sartreos considera "seres em si", completos, acabados, de fato existentes.

Porém, há também um conhecimento ou consciência de que se é consciente, isto é, uma consciência da consciência. Então, diz Sartre, a consciência é um ser "para si".

Sem seu objeto, a consciência é um nada, um não-ser, pois que somente existe na relação de si mesma com o "ser em si". Ela procura o "ser em si" para fundar a si mesma, o que significa que ela destroi o "ser em si", transformando-o no seu próprio nada. "O ser e o nada", título de seu livro, refere-se a esses dois tipos de ser: o "ser em si" (fenômeno) e o "ser para si" (consciência).

Esta concepção do nada como algo que existe, que é a consciência, é importante paraSartre. É preciso notar aqui que é esta constante separação daquilo que somos, queSartre chama o "nada", que obriga a realidade humana a se fazer ao invés de ser. A realidade humana é nada precisamente no que ela não é, mas está a se fazer incessantemente: O "nada", em Sartre, não é uma constatação niilista. E, em suma, a categoria do ideal, dos objetos ideais. É importante encontrar um lugar para o "nada", poder dar existência ao "nada", a fim de fazer real a possibilidade da negativa. "A capacidade de conceber a negativa constitui a liberdade de imaginar outras possibilidades"... O poder de negar é a possibilidade de escolher, é o princípio da liberdade do pensamento (de imaginar possibilidades) e da liberdade de ação (o tentar realizá-las).

Pode-se, no entanto, criticar o postulado de Sartre de que a consciência pode fazer juízos negativos, como algo sem sentido. Os seus críticos apontam que um juízo negativo pode ser expresso em uma sentença negativa. "Pedro não está aqui" é tão verdade quanto "Pedro está fora daqui". O juízo é sempre afirmativo. Mas Sartre pretende "a existência objetiva de um não-ser", do "Nada".

É claro, porém, que a intencionalidade vem primeiro e, depois que se manifesta, alguma coisa foi escolhida, sem que nada seja previamente negado. É um paradoxo que a escolha dependa primeiro de negar determinadas possibilidades. Negar primeiro já é colocar a intencionalidade na negação.

O homem
Como seres conscientes estamos sempre querendo preencher o "nada" que é a essência do nosso ser consciente; queremos nos transformar em coisas em vez de permanecer perpetuamente num estado em que as possibilidades estão sempre irrealizadas.

É o principal postulado do existencialismo Sartreano que não há afirmações gerais verdadeiras sobre o que os homens devem ser. Sartre leva esse indeterminismo às suas mais radicais conseqüências; nega que haja uma natureza humana: não há nenhuma coisa como uma natureza humana que seja comum a todos os seres humanos; nenhuma coisa como uma essência específica que defina o que seja ser humano existe! Por exemplo, para Aristóteles, e os filósofos gregos, a essência de ser humano era ser racional. Mas para Sartre, a pessoa deve produzir sua própria essência, porque nenhum Deus criou seres humanos de acordo com um conceito, um projeto divino definido. - você é o que você faz de você mesmo.

Quando diz "a existência do homem precede sua essência", ou "no homem, a existência precede a essência", ele quer dizer que o homem se apresentou no mundo sem qualquer projeto concebido previamente por um Criador. Não havendo tal essência, todos são iguais e igualmente livres para se fazerem.

"Nojento", como salienta em "A Náusea" é exatamente aquele que esquece isso e se investe de certa "superioridade essencial". Mas não existe "ladrão ou marginal em essência", assim como não há "gente honesta em essência". Transformar o outro em coisa inferior, para se colocar numa essência superior, é negar simultaneamente a sua liberdade e a própria. Enquanto o olhar de alguém objetiva o outro em coisa essencialmente inferior, o outro, por sua vez, olha e constitui esse alguém num carrasco e ele terá vergonha desse seu olhar.

É no universo dos nojentos e dos covardes que vale a dolorosa constatação de "Entre quatro paredes": "o inferno são os outros". Assim, não há uma natureza humana, visto que não há Deus para a conceber: o homem não é mais do que aquilo que ele faz de si mesmo. Tal é o primeiro principio do existencialismo ateu. Mas Sartre salienta que aquilo que vulgarmente entendemos por querer, é uma decisão consciente que, para a maior parte de nós, é posterior ao que alguém já fez de si mesmo.

Liberdade
No entender de Sartre, estamos "condenados à liberdade"; não há limite para nossa liberdade, exceto o de que "não somos livres para deixarmos de sermos livres." Porque não há nenhum Deus e portanto não há qualquer plano divino que determine o que deve acontecer, não há nenhum determinismo. O homem é livre. Nada o força a fazer o que faz. "Nós estamos sozinhos, sem desculpas." O homem não pode desculpar sua ação dizendo que está forçado por circunstâncias ou movido pela paixão ou determinado de alguma maneira a fazer o que faz.

A angústia
Seguindo a Kierkegaard, Sartre usa o termo "angústia" para descrever essa consciência da própria liberdade. Nós estamos livres porque nós não podemos confiar em um Deus ou na sociedade para justificar nossa ação ou para nos dizer o que e quem nós somos. Nós estamos condenados porque sem diretrizes absolutas, nós devemos sofrer a agonia de nossa tomada de decisão e a angustia de suas conseqüências. A angustia é, então, a consciência da própria liberdade... A angústia é a consciência dessa liberdade de escolha, a consciência da imprevisibilidade última do próprio comportamento... Uma pessoa à beira de um penhasco perigoso tem medo de cair, e sente angustia ao pensar que nada o impede de se jogar lá embaixo, de se lançar no abismo. O pensamento mais angustioso de todos é quando, num dado momento, nós não sabemos como nós iremos nos comportar no momento seguinte.

Sartre descreve a vida humana como "uma consciência infeliz". O homem está sempre tentando alcançar um estado em que não restariam possibilidades irrealizadas, no qual diria: "eu não tinha outra escolha, situação em que seria um objeto em vez de um ser consciente, com opções e liberdade. Mas, argumenta, "Não podemos chegar a um estado em que não restem possibilidades irrealizadas", ou aí estaríamos determinados, sem escolha possível e portanto sem liberdade. Não há fuga possível da angústia da liberdade; fugir à responsabilidade é em si mesmo uma escolha.

A "má fé"
Às vezes nós escapamos da ansiedade fingindo que nós não estamos livres, como quando nós fingimos que nossos genes ou nosso ambiente são a causa de como nós agimos. Nós nos permitimos ser auto-enganados ou mentir para nós mesmos, especialmente quando isto toma a forma de responsabilizar as circunstâncias por nosso fado e de não lançar mão da liberdade para realizar a nós mesmos na ação. Quando nós fingimos, nós agimos de má fé.

A má fé é a tentativa de fugir da angústia fingindo que não somos livres. Tentamos nos convencer que as nossas atitudes e ações são determinadas pela nossa personalidade, por nossa situação, ou por qualquer outra coisa fora de nós mesmos". Porém, diz Sartre, o que é aprendido, ou os propósitos, as experiências passadas, não determinam o comportamento atual. Segundo ele, "nenhum motivo ou resolução passada determina o que fazemos agora". "Cada momento requer uma escolha nova ou renovada".

Negar a liberdade é, a seus olhos, uma tomada de posição covarde, a fim de fugir da angústia da escolha, e achar o repouso e a segurança na confortável ilusão de ser uma essência acabada.

Sartre diz que, porque não existe Deus, o homem não foi criado para nenhum propósito particular, essência alguma. Dizer que estamos obrigados por nossa natureza, nosso papel na vida, a agir de certo modo constitui "má fé".

A Psicanálise Existencial
Sartre rejeita enfaticamente a idéia de causas inconscientes dos fatos psíquicos; para ele tudo que está na mente é consciente. Rompeu com a psicanálise por esta retirar a responsabilidade do indivíduo ao invocar a ação de uma força subconsciente e estados mentais inconscientes, que, para Sartre, não existem. Sustenta que a consciência é necessariamente transparente para si mesma. Todos os aspectos de nossas vidas mentais são intencionais, escolhidos, e de nossa responsabilidade, o que é incompatível com o total determinismo psíquico postulado por Freud.

Teríamos de atribuir à repressão inconsciente a alguma instância dentro da mente (a "censura") que distingue entre o que será reprimido e o que pode ficar consciente, de forma que essa censura tem de estar a par da idéia reprimida a fim de não estar a par dela. Portanto, o inconsciente não é verdadeiramente inconsciente. Em algum nível eu estou consciente, e escolho, o que vou e o que não vou permitir vir claramente à minha consciência. Por isso não posso usar "o inconsciente" como uma desculpa para meu comportamento. Mesmo que eu não possa admitir para mim mesmo, eu estou consciente e escolhendo. Mesmo na decepção que sofro, eu sei que sou eu aquele que me decepciona, e o assim chamado "Censor" de Freud deve estar consciente para saber o que reprimir. Aqueles que usam o inconsciente como desculpa do comportamento acreditam que nossos instintos, nossas inclinações e nossos complexos constituem uma realidade que simplesmente é; que não é verdadeira nem falsa em si mesma mas simplesmente real.

Somos responsáveis por nossas emoções, visto que há maneiras que escolhemos para reagir frente ao mundo. Somos também responsáveis pelos traços duradouros da nossa própria personalidade. Não podemos dizer "sou tímido", como se isto fosse um fato imutável, uma vez que nossa timidez representa a forma como agimos, e que podemos escolher agir diferentemente.

Nossos atos nos definem
Na vida, o homem se compromete, desenha seu próprio retrato e não há mais nada senão esse retrato. Nossas ilusões e imaginação a nosso respeito, sobre o que poderíamos ter sido, são decepções auto-infligidas. Permanentemente estamos a nos fazer do modo que somos. Uma pessoa "corajosa" é simplesmente alguém que geralmente age com bravura. Cada ato contribui para nos definir como somos, e em qualquer momento podemos começar a agir de modo diferente e desenhar um retrato diferente de nós mesmos. Há sempre uma possibilidade de mudança, de começar a fazer um tipo diferente de escolha. Temos o poder de nos transformar indefinidamente.

O instrumento proposto por Sartre para que possamos conseguir um auto-conhecimento genuíno é a Análise Existencial. Ele chama "Psicanálise Existencial" a "Uma psicanálise que busca não as causas do comportamento de uma pessoa, mas o seu sentido" (O que o comportamento exprime como escolha). A função desta psicanálise não é procurar as causas inconscientes do comportamento de uma pessoa, mas o significado desse comportamento. A realidade humana identifica-se e se define pelos fins que busca e não por pretensas "causas" no passado.

Nenhuma "essência" determinada de mim mesmo orienta a priori meu comportamento. Porém, há o que Sartre chama "Projeto Original". Como uma pessoa é essencialmente uma unidade, e não apenas um amontoado de desejos ou hábitos sem relação, deve haver para cada uma delas uma escolha fundamental por um papel ou script de vida, o "projeto original", o qual dá o significado de qualquer aspecto específico de seu comportamento.

A radical oposição de Sartre à psicanálise influiu grandemente na psiquiatria de seu tempo. Ronald David Laing (1927-1989), um conhecido psiquiatra inglês de origem escocesa, buscou um novo método de tratamento da loucura seguindo a filosofia existencialista. Entre suas principais obras está Reason & Violence: A Decade of Sartre”s Philosophy ("Razão e violência: uma década da filosofia de Sartre"), em co-autoria com D.G. Cooper, de 1971.

Socialismo
Sartre rompeu com o socialismo e a psicanálise considerando o quanto o Existencialismo se opõe à teoria psicanalítica. A submissão ao inconsciente significaria cerceamento da liberdade. O mesmo diz do socialismo. Depois de renunciar ele mesmo ao comunismo, denunciou que o planejamento social implica restrição ou perda total da liberdade. Os existencialistas acreditam na capacidade de todo indivíduo de escolher as suas atitudes, objetivos, valores e formas de vida e seu postulado de liberdade representa obstáculo intransponível ao conformismo requerido pelo planejamento socialista e sua negação da individualidade em favor do social e coletivo.

Posteriormente Sartre adotou uma forma de marxismo que ele considerava como a "filosofia inescapável do nosso tempo", que só precisava ser refertilizada pelo existencialismo. Esta mudança de ponto de vista encontra-se na sua "Crítica da Razão Dialética", volume I, de 1960.

Deus
Sartre é um existencialista ateu. Segundo Sartre, o homem está abandonado; Deus não existe e, para Sartre, a não-existência de Deus tem implicações extremadas. Aliás, alguns dos problemas principais que se levantam do abandono parecem também levantar-se meramente do fato de nós não podermos saber se Deus existe. Se Deus realmente existe, nós "não estamos abandonados". O problema do abandono levanta-se meramente do fato de nós não podermos saber se Deus existe. Sua existência em tais condições equivale, para Sartre, em uma não-existência efetiva, que tem implicações drásticas. Primeiro, porque não há Deus, não há nenhum criador do homem e nem tal coisa como um concepção divina do homem de acordo com a qual o homem foi criado. Segundo, diz ele, louvando-se em Dostoiévski (na fala de Ivan Karamazov, na famosa novela daquele escritor russo): Se Deus não existe, então tudo é permitido. Terceiro, "Não há um sentido ou propósito último inerente à vida humana; a vida é absurda".

Isto significa que o indivíduo, foi jogado de fato na existência sem nenhuma razão real para ser. "Simplesmente descobrimos que existimos e temos então de decidir o que fazer de nós mesmos.".

Resta como o único valor para o existencialismo ateu a liberdade. Afirma que não pode haver uma justificativa objetiva para qualquer outro valor.

Porque não há nenhum Deus, não há nenhum padrão objetivo dos valores. Com o desaparecimento dele desaparece também toda possibilidade de encontrar valores. Não pode então haver qualquer bem a priori porque se nós não sabemos se Deus existe, então nós não sabemos se há alguma razão final porque as coisas acontecem da maneira que acontecem; não há nenhuma razão final porque qualquer coisa tenha acontecido ou porque as coisas são da maneira que elas são e não de alguma outra maneira e nós não sabemos se aqueles valores que acreditamos que estão baseados em Deus têm realmente validade objetiva. Consequentemente, porque um mundo sem Deus não tem valores objetivos, nós devemos estabelecer ou inventar, a partir da liberdade, nossos próprios valores particulares. Na verdade, mesmo se nós soubéssemos que Deus existe e aceitássemos que os valores devessem basear-se em Deus, nós ainda poderíamos não saber que valores estariam baseados em Deus, nós poderíamos ainda assim não saber quais seriam os critérios e os padrões absolutos do certo e do errado. E mesmo se nós sabemos quais são os padrões do certo e do errado (critérios), exatamente o que significam ainda seria matéria da interpretação subjetiva. E assim o dilema humano que resultaria poderia ser muitíssimo o mesmo como se não houvesse Deus.

Ética
Sartre acredita na capacidade de todo indivíduo de escolher as suas atitudes, objetivos, valores e formas de vida. É uma ilusão a crença de que os valores existem objetivamente no mundo, em vez de serem criados apenas pela escolha humana. Recomenda honestidade, ou seja, que façamos nossas escolhas individuais com plena consciência de que são autenticamente nossas e nada as determina por nós. Parece assim que Sartre, a partir das próprias premissas, teria que elogiar o homem que escolhe devotar a vida à exterminação dos judeus, contanto que ele escolha isso com plena consciência do que está fazendo. Porém, paradoxalmente, a "sinceridade" que iria contrapor-se à má fé, não é inteiramente possível. O ideal de sinceridade completa parece condenado ao fracasso por dois motivos. Primeiro, uma vez que não podemos ser simplesmente objetos observados e corretamente descritos, não podemos ser considerados, nem por nós mesmos, como honestos. Segundo, por que se é sincero no mal. Assim sendo, o único valor fundamental e universal para o existencialismo é a liberdade. Diz Sartre "Não pode haver uma justificativa objetiva para qualquer outro valor". A única recomendação positiva que Sartre pode fazer é que deveríamos evitar a má fé e procurar fazer escolhas autênticas.

Crítica
Sartre foi, sem dúvida, essencialmente um filósofo moralista e um psicólogo arguto, e contou com a simpatia de uma vasta imprensa esquerdista em todo o mundo. Porém, pouco do que disse foi concepção original sua. Ele tomou seu ponto de partida das filosofias de Husserl e Heidegger. Seu primeiro trabalho, L”Imagination (1936) e L”Imaginaire: Psychologie phénoménologique de l”imagination (1940), ficam completamente no contexto da análise da consciência que fez Husserl. O pensamento de Heidegger aparece com clareza em "A Náusea". A definição do homem como um ser de possibilidades que encontra ou perde a si mesmo nas escolhas que faz com respeito a si mesmo corresponde à definição de Heidegger do que chamou Dasein como o ser que tem que se fazer, se materializar. Segundo seus críticos, no L”Être et le néant (1943), um ensaio de ontologia fenomenológica, está óbvio que Sartre copiou de Heidegger. Algumas passagens da obra de Heidegger Was ist Metaphysik? (1929- "Que é a Metafísica?"), na verdade foram literalmente copiadas. O significado do "Nada", objeto da investigação de Heidegger em suas aulas, foi a questão que guiou o pensamento de Sartre.



Guilherme SM - Jean Paul Sartre - in. Link Origins, Internet, disponível em http://linkorigins.blogspot.com.br, revisto em 2014





Cobra, Rubem Q. - Jean Paul Sartre. Filosofia Contemporânea, Cobra Pages - www.cobra.pages.nom.br, Internet, 2001


Envie um Elogio, Crítica ou Sugestão | Para o Autor

Nome

E-mail *

Mensagem *